segunda-feira, março 24, 2008

O Retorno de Coppola


O texto abaixo saiu na edição de novembro da Cahiers du Cinema.

A Terceira Rosa entre os Dentes

por Jean-Michel Frodon

Ele está de volta. É difícil estabelecer comparações para o retorno de Francis Ford Coppola à tela grande dez anos depois de O Homem Que Fazia Chover. Pois Coppola encarna, como ninguém, as conquistas, as esperanças, as contradições e as utopias do Cinema. Deveria eu acrescentar “do cinema americano desde os anos setenta até os anos 90”? Isto seria tão verdadeiro quanto reducionista. Lembremo-nos de uma história que, de tão conhecida, acaba sendo constantemente esquecida:
1) Um tremendo artista do filme no sentido da inventividade estética, como visto na jamais rivalizada aventura de Apocalipse Now; a trilogia O Poderoso Chefão, com os episódios 2 e 3 construídos sobre e contra a obra prévia; a extraordinária variedade de invenção formal que atinge as raízes das coisas em A Conversação, Jardins de Pedra, O Selvagem da Motocicleta, Tucker – Um Homem e seu Sonho e o injustamente depreciado e surpreendente Jack.
2) Um visionário em seu próprio tempo, um tempo que ele não tem descrito muito, mas o tem questionado com grande profundidade através dos métodos da ficção e do espetáculo cinematográfico.
3) O autor de uma pessoal e coerente meditação, que corre por todo o seu trabalho, sobre seres humanos colocados no tempo.
4) O audacioso estrategista de uma hipotética indústria alternativa ao modelo de Hollywood, cujo fracasso revela mais sobre a coragem e a energia despendidas do que sobre a impossibilidade do projeto.
5) Um pioneiro de inovações tecnológicas concebidas tanto num plano estético quanto econômico, com grandes marcos como as apostas de One From The Heart e Megalopolis, o projeto que permaneceu escorregando além do horizonte. A equação Coppola: 1+2+3+4+5=cinema.

Ainda que a equação dificilmente resuma uma vida ou o conjunto de uma obra, ela oferece algumas referências para esboçar a silhueta de um homem e de uma idéia em transformação, com mais do que a sua parcela de drama e de fracasso. Ainda que Coppola se apresente a si mesmo como um ícone jocoso, um fabricante de bons vinhos, um latino homem de família e um jovial contador de histórias, a dimensão trágica continua a persegui-lo. Enquanto ele se prepara para revelar ao mundo o seu vigésimo primeiro filme, o golpe que sofreu recentemente – um roubo brutal e a perda de grande parte dos seus arquivos – parece bem mais do que uma notícia banal. Qualquer um que tenha visto um filme sequer de Coppola pode adivinhar o que a perda de fotos de família representa para um homem que tem construído um tão ansioso e apaixonado lugar para os laços de sangue e devotado tamanha importância para a noção de deixar um legado e um registro. Este trauma, durante o qual sangue foi derramado, mais uma vez ameaçou o futuro – o roteiro do próximo filme foi roubado – justamente quando este parecia estar em vias de reconstrução. Por outro lado, o evento parece trazer um alívio, ainda que brutal, em relação ao peso do passado num momento em que justamente se deve seguir adiante.

Do início ao fim, Youth Without Youth é assombrado por essas mesmas tensões e contradições, esses paradoxos e essa violência, descendo aos mais profundos abismos, subindo às mais vertiginosas alturas e assumindo a mais selvagem narrativa. Por mais criativo que já fosse o conto de Mircea Eliade no qual ele se baseou, Coppola não se conteve em lhe adicionar largas doses de fantasia narrativa. O diretor foi até a Europa Central, o pólo oposto de Hollywood – mas seu celeiro criativo original, em busca da possibilidade de reinventar a si mesmo, aquele que conhece tudo e realizou tudo, voltando ao nível de um iniciante. Nessa singular atitude, encontramos o orgulho de Fausto, com o desconto da modéstia e da agilidade tática. Esse gesto, o qual – como sempre ocorre com Coppola – é tanto o gesto do artista quanto o gesto do produtor, transforma Youth Without Youth em uma demanda cavaleiresca por uma utopia a qual o cinema não pode exatamente dispensar, não importa o quão envelhecido fique, coisa que Godard chama de “a infância da arte”. Por favor, abram caminho para o cavalo de Dom Quixote, aquele que passa não é um velho louco, mas a figura da quimera humana em um terreno bem sólido.

O que é que Dom Coppola procura? Cinéfilos e especialistas em religião conhecem a parábola das três rosas, que circula pela mitologia, e é um dos temas centrais de Youth Without Youth e da história de Eliade. A flor redundante que permanece como um traço tangível e colorido de um outro mundo invisível, a flor dada pelos anjos ao sonhador que viaja através do céu e do inferno do conhecimento, do terror e do amor, aquela flor que nós chamamos de filme quando é Francis Ford Coppola quem a cultiva e colhe, testemunha em dois mundos, por dois mundos, ao mesmo tempo: o velho e o novo, realidade e o imaginário.

Levantem as luzes!

4 comentários:

Ronald Perrone disse...

Assisti e, infelizmente, não gostei, apesar do visual incrível e o talento de Coppola na direção... o problema é o material que ele escolheu... ainda tenho esperança de ver uma nova obra prima do diretor.

André Renato disse...

Nunca li nenhuma obra literária de Mircea Eliade, mas me amarro bastante em mitologia. Quero ver qual é a desse filme, a sinopse me pareceu interessante...

Wally disse...

O texto é excelente. Coppola é um gênio e verei o filme apesar das críticas. Alias, nem sempre todos estão certos. Só sei que também fui intrigado pela sinopse.

Ciao!

Vinícius Lemos disse...

Se um filme causa tanta discussão sobre a sua qualidade, ou mesmo pelo retorno de um gênio é porque, no mínimo, a obra tem algo a dizer, pois sem isso nem um gênio seria descrito como tal em seu retorno ou sua mensagem seria decodificada, causando discussões. A ver (com muita ansiedade).