sexta-feira, janeiro 25, 2008

A Dama de Shangai


Cinemão noir da melhor extirpe. Pena que o gênero hoje já está desacreditado, pelo menos nas formas mais características e que acabaram virando lugar-comum. Assim, um filme como A Dama de Shangai (1947) está em nossos tempos mais para paródias no estilo de “Os Simpsons” do que para uma expressão a ser levada a sério. Falo apenas da expressão, da forma, pois em relação ao conteúdo, é lógico que os enredos “noir” jamais tenham recebido algum crédito em termos de realidade. São, por excelência, narrativas folhetinescos para o público masculino. E, como tais, são muito empolgantes. Esta pérola de Orson Welles é uma das mais interessantes realizações do gênero.

Mas ainda cabe dizer que o gênero “noir” parece dotado de uma espécie de ingenuidade – algo naïf – que se revela na simplicidade dos conteúdos e dos questionamentos morais (ou amorais, ou imorais) veiculados nessas obras. A complexidade psicológica das personagens é apenas aparente, pois, no final, tudo e todos se reduzem e se encaixam em algum lugar bem determinado. O ingênuo também se encontra nas formas de expressão, na estilística bem única dos filmes “escuros” – daí as constantes paródias. No fundo, parodia-se este gênero da mesma maneira e pelas mesmas razões com que a arte moderna muito parodiou e continua parodiando a arte romântica (basta ler as inúmeras sátiras da nossa famosa “Canção do Exílio”, do grande e puro Gonçalves Dias).

Paródia ou não, o legado de A Dama de Shangai está presente no brasileiro A Dama do Cine Shangai (Guilherme de Almeida Prado, 1988). O ultra-incensado realizador chinês Wong Kar Wai (de 2046 – Os Segredos do Amor, Amores Expressos e Amor à Flor da Pele) está preparando um “remake” do original de Welles para 2009. Parte da ingenuidade romântica desta velha fita vem do próprio diretor-gênio de Cidadão Kane. As assinaturas estilísticas de Orson Welles já constam de todas as cartilhas cinematográficas, mas isso não arranca a beleza, o efeito, a força da impressão que a criação original nos provoca, a cada vez que assistimos e assistimos novamente.

A metáfora da “crazy house” do parque de diversões abandonado, na qual foi escondido e preso o protagonista Michael O’Hara (o próprio Welles), com seus espelhos distorcidos, suas paredes e pisos que mais lembram um cenário de O Gabinete do Dr. Caligari (Welles nunca deixa de prestar tributo ao expressionismo), como simbologia do estado de confusão e atordoamento mental em que se encontra o próprio personagem – enquanto a sua voz em “off” nos explica as causas de tal confusão – pode ser simplista, explícita ou direta demais, mas precisamos dar crédito à beleza e a força significativa das imagens.

Tão simples quanto, mas com ainda mais força imagética é a famosa cena no labirinto dos espelhos (que retoma e potencializa o motif de um plano muito curto de Cidadão Kane. Aqueles espelhos, colocados uns diante dos outros, refletem até o infinito não só as imagens corporais das pessoas ali presentes, mas também os seus dramas e conflitos. Também de maneira “significativa”, os espelhos fazem com que a figura real da pessoa se perca entre as múltiplas imagens de seus reflexos. Tentando-se atirar no sujeito, acerta-se apenas um de seus muitos reflexos. De qualquer maneira, é um daqueles pedaços de filme que é legal se levar para uma sala de aula e discutir, debater, analisar coletivamente.

Orson Welles é um dos maiores diretores de todos os tempos e um dos mais didáticos, tal qual um outro grande mestre e professor da sétima arte: Alfred Hitchcock. Aliás, A Dama de Shangai é mesmo, em vários aspectos, um filme hitchcockiano. Ou será que alguns filmes do “mestre do suspense” não seriam na verdade wellesianos? O fato é que, ao se assistir a qualquer obra desses dois, percebe-se com muita clareza e ímpeto as marcas da autoria. Mas não são marcas quaisquer de autorias quaisquer (há muitos e muito diferentes autores no cinema). Orson Welles e Alfred Hitchcock se parecem mais com autores do Romantismo, os quais se colocam com toda a força do seu espírito (e também com a força da sua presença corporal) dentro de e em cada plano de seus filmes.

Se há casos em que eu (quase) consiga identificar o diretor de um filme (ao qual eu nunca assisti) apenas por ver uns trinta segundos de fita (Maestro, qual é a música?), esses casos são os do “enfant” e do “monsieur” terribles da sétima arte. A força e a ingenuidade do espírito romântico, que é ingênuo não por acreditar em valores “ingênuos” como a paz, o amor, a bondade; mas por acreditar acima de tudo em si mesmo e em suas idéias – quaisquer que sejam elas (e elas podem variar bastante, e serem bem pouco “ingênuas”). Mas ainda há um outro grande mérito para A Dama de Shangai: que é a própria “dama” em questão: Rita Hayworth. Não há Nicole Kidman ou Rachel Weisz (segundo os boatos em relação à refilmagem de Kar Wai) que se lhe compare. Mas veremos.

2 comentários:

Elisa disse...

Filme doidão. Dá uma medida da genialidade e da ousadia de Welles, porque é todo forma e pouco importa o enredo absurdo, desde que se entre no espírito expressionista, debochado e inventivo do diretor. Nunca houve julgamento de tribunal mais absurdo, debochado, grotesco e surrealista que aquele de Michael, no final. E Rita está linda.

fragmentos disse...

O filme é marcante. A cena o tribunal é marcante tambem. Welles faz movimentos e planos que são bem diferentes dos padrões de cenas de tribunal tanto da epoca quanto atualmente.

Texto mtu bom. Só fiquei com uma ressalva. Não acho que Welles seja um diretor didático. Pelo contrário, nesse próprio filme acredito que é claro como o Welles não se preocupa necessariamente com a clareza do expectador, grande preocupação Hitchcock, porém mais com seus próprios objetivos. Acredito que A Dama de Shangai é um filme noir bem experimental.