sábado, fevereiro 07, 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


O Curioso Caso de Benjamin Button (“The Curious Case of Benjamin Button”, EUA, 2008, dir.: David Fincher) é um filme muito bonito e significativo, mas convencional como um best-seller. Apesar da sua intrigante premissa (um homem que nasce velho e que vai rejuvenescendo ao longo do tempo), o roteiro e a realização cinematográfica transmitem o tempo todo a forte impressão de que já vimos tudo isso antes. Desde as “catch phrases” de personagens, até as frases de lição filosófica pronunciadas pelo narrador (com voz em off, logicamente), a maior parte desse filme é composta de lugares-comuns. Talvez não tão comuns – graças a Deus – mas mesmo assim relativamente comuns. Benjamin Button se dirige ao espectador com o ímpeto e a boa vontade daqueles filmes que parecem ter sido feitos somente para abocanhar a maior quantidade de óscares possível.

A nova fita de David Fincher parece seguir à risca os manuais de produções “artísticas” a serem produzidas pelos selos para filmes “alternativos” dos grandes estúdios de Hollywood. Trata-se dos melhores manuais – posto que não passem de manuais. É um filme a ser exibido nas faculdades de cinema e de comunicação audiovisual. Benjamin Button é um best-seller cinematográfico. Atribua-se o valor que se quiser a esse fato, contanto que se o reconheça. Não obstante, o que interessa chamar à atenção aqui é que este filme é um bom best-seller. A começar pela premissa fantástica e por boa parte das suas consequências, muito bem trabalhadas. Em segundo lugar, é um filme muito competentemente realizado, nos aspectos técnicos; isso não quer dizer muita coisa para a abordagem que eu proponho, mas trata-se de um filme virtuosamente profissional – isso deve ser lembrado.

Em terceiro lugar – o mais importante –: Benjamin Button disfarça bem a sua estrutura convencional, por baixo de um acabamento que acaba por destacar mais a concepção criativíssima da premissa tirada de um conto de F. Scott Fitzgerald. O conjunto do filme tem uma apresentação sutil na tela. Embora se torne cansativo em alguns momentos, nós não nos sentimos excessivamente marketeados, manipulados pelos clichês semi-artísticos de uma produção oscarizável. Apesar de reconhecermos que tais clichês estão ali presentes, o filme de Fincher não é, absolutamente, tão irritante e “picareta” quanto Desejo e Reparação (2007, dir.: Joe Wright), o típico “oscarizável” do ano passado. Tal equilíbrio, eu creio que se deva a David Fincher, que decidiu aqui deixar de lado o caminho da violência que andava palmilhando desde Alien 3 (1993) até Zodíaco (2007).

7 comentários:

Luciano Lima disse...

Adorei o seu texto, principalmente o final. Atribuo também a qualidade de Benjamin Button ao Fincher, que, mesmo "seguindo a cartilha" conseguiu dar alma a um roteiro que, ainda que hábil em saber escolher de forma correta o que deveria ou não ser retirado do conto original, tem falhas.

Abraço!

pseudo-autor disse...

Um filme tecnicamente impecável, mas infeliz na escolha do protagonista (que pedia um ator de mais arrojo). Mostra claramente o talento do Fincher (um diretor de quem gosto muito, desde os tempos de Seven).

André Renato disse...

No geral, essa tem sido a fortuna de "Benjamin Button" mesmo: grandes elogios ao lado de fortes ressalvas. Todo mundo gosta dele, mostra qualidades, mas não deixa também de apontar problemas...

Será que teremos, no Oscar deste ano, "unanimidades", "obras-primas" como "Onde os Fracos Não Têm Vez" ou "Sangue Negro"?

Luciano Lima disse...

Só avisando que vc é um dos Blogs Maneiros d'A Sala ^^

Luis Felipe disse...

O maior problema estrutural foi Roth ter copiado tantos momentos do seu Forrest Gump... O que não alivia a barra de Fincher (um dos meus "heróis") é o fato dele ter se prestado a isso...

BRENNO BEZERRA disse...

só um simples fechar dos olhos de um bebê já foi bastante emocionante.

André Renato disse...

Concordo, Luis Felipe. Achei estranho mesmo o Fincher fazer esse filme...

Mas a última cena, Brenno, é de fato a melhor! Sublime...