domingo, agosto 17, 2008

A Noiva Cadáver


Como não se compadecer com o destino de Emily, a “Noiva Cadáver”? Quisera eu estar lá para ficar com ela, para mostrar a ela que existe sim o amor para todos e para qualquer um. Mas será que algumas pessoas estão destinadas à solidão? Que sina!... De qualquer maneira, personagens assim, por mais que nos deixem tristes, também são extremamente fascinantes, por causa mesmo de sua tragédia, bela e triste, triste e bela. O sacrifício por outrem também é belo: personagens que se tornam párias apenas por quererem se enquadrar. Enquadrar-se na vida de alguém, de modo meio desajeitado, meio desesperado. Personagens com tanto carinho para dar, mas quem é que vai querer o carinho de uma mão esquelética? Ou o beijo de uma boca fria e enrugada da decomposição? As fábulas de Tim Burton são muito cruéis, mas reais. Terrivelmente reais.

Todos os “mortos”, os “loosers”, as vítimas de “bullying”, os corações demasiado sensíveis, quebrados – ou que nunca chegaram a se “construir” – encontram a sua expressão na arte de Burton. Mas antes que o chamem de romântico, gótico ou “emo”, saibam que o diretor de A Noiva Cadáver (“Corpse Bride”, EUA, 2005) é um artista que supera as rotulações. Ele é dotado de uma visão de mundo pessoal e facilmente perceptível, ainda que influenciada fortemente por certas tradições culturais muito bem fundamentadas. Mas é justamente esta a dialética do artista. Talvez o mais interessante em Burton seja a leveza com que conduz conteúdos e formas pesadas, uma leveza mesmo infanto-juvenil, fresca, ingênua e dotada de um sensível humor – mas não aquela ironia macabra do Ultra-Romantismo, pelo menos não o tempo todo.

Daí que Burton é altamente recomendável para as crianças que querem encontrar o lado adulto das coisas mais essenciais da vida, do mundo e do ser humano; assim como aproveitará bem seus filmes o adulto que deseja (re)encontrar a infância. Também isto é muito dialético. Burton revela o lado “dark” do universo infantil e o lado infantil do universo “dark”. E sabe o que é melhor? Nem dá pra saber qual é qual direito... De qualquer modo, o mundo “downstairs” é muito mais colorido mesmo que o “upstairs”. O “morto” é mais vivo do que os vivos, que são verdadeiramente mortos... Mas, antes que isto sirva de inspiração aqueles espíritos maliciosos e sectários (góticos, emos, e outras laias) que se trancam em sua própria torre de marfim, saibam que Tim Burton promove, acima de tudo, o encontro, a reconciliação e a mistura entre os dois mundos. Eis o toque do artista.

3 comentários:

Carol. disse...

Falar de Burton é, pra mim, um pouco mais do que falar de um diretor. É dizer um pouco do mundo em que vivo, por mais aterrorizante que ele pareça ser...
Emily é o tipo de pessoa que me visita constantemente e compartilha algumas características em particular (incluindo o complexo que tem consigo mesma).
O mundo downstairs é incrivelmente encantador, marcado por cores, contrastes e mais parece habitar pessoas vivas que o mundo dos vivos em si.
As músicas de Elfman também integram a animação de tal forma que acaba sendo impossível separá-las. O humor suavemente sombrio, ou sombriamente suave, marca as relações do jovem Victor e os mundos one passa a viver.
'play dead, Scrabs!'
Mas acaba sendo inacreditável como me sinto ao ver essa última animação de Tim Burton... someone to set Emily free, 'cause she is between two worlds: the sad and normal one... and hers!

Cine Carranca disse...

Na verdade eu espera mais desse filme....
Mas tenho que deixar claro aqui que adoro esse diretor! Com certeza um dos melhores diretores na minha opinião! caro Burton, seus filmes sao muito bons.
Nunca falarei mal de vc ou seus filmes no meu blog!

André Renato disse...

Filmes como "A Noiva Cadáver" também revelam pra mim coisas do meu mundo e de mim mesmo, algumas não tão belas...

Meu texto não teve como não ser altamente emotivo! Fazer o quê?

Tim Burton é um universo rico, profundo e estranho... Ou seja, tudo do bom e do melhor! Pelo menos, para mim...