quinta-feira, agosto 21, 2008

Diary Of The Dead


Se o cinema é um campo de batalha, como dizia Samuel Fuller, George A. Romero é um dos grandes generais. Ou melhor, um soldado raso, voluntarioso e intrépido, um guerrilheiro, um terrorista. Seus filmes continuam subversivos, insistindo em velhos ideais que se recusam a envelhecer. Ainda mais que, quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas. Sendo assim, a contra-cultura anárquica de Romero e de Mojica (que discuti ontem) continuam sendo mais do que bem-vindas e necessárias. Mas talvez eu esteja exagerando. Talvez Diary Of The Dead (EUA, 2007) seja apenas um caça-níquel. Mesmo assim, o filme é um caça-níquel de muito melhor qualidade e integridade artística do que muitas obras “independentes” por aí. George Romero e seus filmes de zumbi podem estar velhos, mas ainda não se cansaram. Ainda há surpreendentes lenhas a queimar.

O cinema ideológico do mestre Romero é bem simples, no fundo. Mas, a cada filme, o inventor das fitas “de zumbi” sabe se reinventar, sabe promover variações novas e estimulantes de um mesmo tema básico que, nas mãos de qualquer outro diretor, já teria se esgotado há muito tempo, longe no entanto de atingir o ápice do seu potencial de fabulação. Neste “spin off” de A Noite dos Mortos Vivos (1968), a astúcia do cineasta se aproveita da filmagem “amadora” que é uma das grandes tendências do cinema contemporâneo. O amadorismo aqui não é apenas um princípio estético, mas um recurso de fabulação narrativa, quero dizer, seguindo a linha iniciada pela Bruxa de Blair (1999) e que, recentemente, produziu dois frutos interessantíssimos: Cloverfield (2008) e Rec (2007), este último também um filme de zumbi.

A mitologia dos mortos que andam e comem a carne dos vivos está em todo lugar hoje em dia, até mesmo nos vídeo-games (vide as séries “Resident Evil” e Silent Hill”). E, por mais que sejam interessantes algumas produções, Romero sempre reaparece e mostra quem é o criador e mestre. Se, no meio de tantas porcarias, tinha surgido algo interessante como Extermínio (2002), veio Romero e fez A Terra dos Mortos (2005), melhor ainda, obra não apenas de mestre, mas de gênio inventor. Então, apareceu o espanhol Rec, que trouxe para o gênero a estética e o princípio de fabulação da “câmera na mão” (o filme que nada mais é do que a filmagem “documental” dos acontecimentos captados por alguém, sem qualquer “decupagem”). Mas eis que surge Romero com o seu “diário” dos mortos e bate de lavada, vencendo a partida, por mais que o adversário tivesse valor e tenha feito uma boa luta.

O ultra-realismo da filmagem amadora, inconsciente, sem decupagem, aproveita-se aqui de citações à estética dos “reality shows”, do uso de câmeras de telefones celulares, de computadores ligados à Internet, com os devidos sites de vídeo do tipo Youtube, sem contar as velhas imagens de TV captadas por cinegrafistas amadores. Há um diálogo entre os personagens que expressa exatamente o espírito do filme: fala-se das pessoas normais com suas câmeras caseiras no meio de grandes catástrofes, compelidas a mostrar sua visão pessoal das coisas... O filme tem várias sacadas assim. Entretanto, no meio da estética “amadora”, percebemos a arte cinematográfica muito bem pensada de Romero. Por exemplo, na bem sacada profundidade de campo logo no começo do filme, que mostra o primeiro ataque zumbi com uma surpresa digna mesmo desse primeiro ataque, surpresa que impressiona muito o espectador, graças a tal profundidade de campo, da maneira como ela foi construída ali.

Mas vamos lá. Qual é o grande diferencial dos filmes de zumbi de Romero, e que se faz muito presente também neste “Diário dos Mortos”? Vamos começar pela ironia. São hilários aqui o Amish surdo, confundido com zumbi, o palhaço de festa infantil – efetivamente zumbi – e principalmente a incrível ironia de uma cena perto do final, que retoma outra cena, do começo do filme. Outro elemento tipicamente romeriano é o comentário social, crítico, subversivo e contra-cultural: de novo aparece aqui a questão racial dos EUA, com os negros aproveitando a oportunidade do apocalipse zumbi para finalmente “assumir” o poder; milícias brancas de saqueadores; caipiras que brincam de tiro ao alvo com zumbis; execuções sumárias; questões de família (em cenas bem fortes, nas quais entra a questão dos limites psicológicos das pessoas em situações de limites sociais).

Mas o principal neste filme, a respeito dos fatos sociais, é o poder da imagem audiovisual, de mostrar ou inventar a realidade, revelar ou esconder, muito graças ao trabalho discursivo da edição / montagem de vídeo, que é o verdadeiro caráter da linguagem cinematográfica, de acordo com a melhor tradição do cinema ideológico, que é a de Eisenstein e cia. A fábula / parábola social de Romero é bem explícita e didática: discute-se aqui o poder da mídia que “constrói” os fatos, orientando com isso a visão e a opinião do público. Mais uma alfinetada na política norte-americana pós-11/09. De resto, Romero é um revolucionário da velha guarda: sua fábula-apocalipse da “morte da morte” (parece Saramago isso), no fundo, não é nenhuma tragédia. É uma história de esperança (!). Pode acreditar. Os zumbis de Romero encarnam a marcha revolucionária que ameaçou, mas não chegou, lá nos anos 60. Mas o cineasta não perde as esperanças.

5 comentários:

Ronald Perrone disse...

Gostei demais de Diário dos Mortos. As críticas, os temas, o humor e lógico os mortos vivos típicos do diretor... não precisa de mais nada. Um dos melhores do ano.

Ibertson Medeiros disse...

Quero muito ver esse novo trabalho do George Romero.
Preciso ver A Noite dos Mortos Vivos e Dia dos Mortos. Só vi Despertar dos mortos e Terra dos mortos da série.

Johnny Strangelove disse...

é aquela coisa, quem é mestre nunca perde o taco. o gênio continuou o mesmo, mas a mentalidade atual é outra. O pensamento dos jovens atualmente é praticamente restrito, endeusando filmes que estão longe de serem dignos de sentimentos (exemplo atual é o superestimado e fraco REC) e como você disse, por mais que a dose de frescor do adversário seja gostoso, Romero sabe o que faz e conquista aqueles que não só apenas de um bom susto, mas também de reflexão e desafios dentro de um gênero dificil de aceitar inovações.


Abraços

Cine Carranca disse...

Podem dizer oq quiser, mas eu achei esse o pior dos filmes de zumbis do George Romero!
adoro todos os antigos, mas esse achei fraco demais....=/

André Renato disse...

Magina! Não vou dizer nada, amigo! Talvez apenas o que diz Guimarães Rosa: "Pãos ou pães, é tudo questão de opiniães..."

Abraços a todos!

Ah, estou para assistir "Zombie", de Lucio Fulci...