sábado, outubro 30, 2010

Minha Felicidade


Minha Felicidade (“Schastye Moe”, Alemanha / Ucrânia / Holanda, 2010) é o primeiro longa de ficção do diretor russo Sergei Loznitsa, mais conhecido – e premiado – por seus documentários. Foi exibido este ano em Cannes, provocando surpresa e polêmica, tanto entre seus compatriotas quanto na crítica estrangeira. A causa é aquela já tão batida visão misantrópica do homem e da sociedade, adotada por Loznitsa e manifestada, neste filme, sem maiores cuidados com as sensibilidades do espectador.

O fato é: se você gosta de Lars Von Trier e dos nossos Sérgio Bianchi e Cláudio Assis, terá uma boa tendência a se refestelar deliciosamente na miséria humana concentrada pelo cineasta russo como que numa piscina de excrescências morais. De qualquer maneira, não consigo mais cair naquela conversa – que parece trunfo na manga de muitos críticos – do artista “com uma visão profunda da verdadeira natureza humana”, com um olhar “que disseca impiedosamente a organização social”, etc e etc.

Juízos conteudísticos à parte – pelo menos, neste caso – o que interessa é argumentar a favor ou contra a realização formal da obra; já que se trata de cinema, e supondo que este seja mesmo a “sétima arte”, o essencial é julgar se o artista logrou expressar, esteticamente, sua visão de mundo, seja esta à lá “garoto enxaqueca”, ou à lá “Pollyanna”. Neste ponto, devemos dar a Loznitsa um crédito semelhante ao Von Trier de Anticristo (2009), e muito maior do que os aprendizes brasileiros que citamos acima.

Minha Felicidade parte da estrutura de um “road movie”, que nos conduz e atrai, com a força irrepreensível de um buraco negro, para os recônditos mais ctônicos do coração das trevas russo (esta indicação se encontra na resenha do crítico russo Anton Dolin, na Film Comment). O processo, bem gradativo, concentra-se na figura do caminhoneiro Georgy (Viktor Nemets), que empreende uma viagem pelo interior do país, rumo a um destino nunca revelado, para entregar uma carga de farinha.

Mas, ao prosaico do elemento material (incluindo a figura do pequeno caminhão, um velho Mercedes Benz que não vemos pelas ruas daqui há, pelo menos, uns vinte anos), opor-se-á o quase metafísico (infernal) processo de dissolução mental do protagonista, tornando-se mais “viajado” do que “viajante”, conforme vai adentrando mais e mais na densidade selvagem de um território no qual o Mal sopra e age como o vento, como uma força da natureza avessa a qualquer racionalização.

A última cena do filme é de grande – e simbólica – beleza: tornado definitiva e irremediavelmente mais coisa do que homem, sem memória e sem fala (ou seja, sem identidade), um vegetal ambulante carregado para lá e para cá pela vontade alheia, Georgy voltará a tomar uma atitude (consciente?) de homem – única e última. Uma atitude de violência quase divina, declaração de abandono final da humanidade e do mundo.

Após (tudo se passa à noite, num posto policial perdido no meio do nada), vemo-lo caminhar lentamente, como em transe, rumo à escuridão absoluta e desaparecer nela. Contribui muito, para o grande impacto visual desta narrativa, a fotografia do romeno Oleg Mutu (que também assinou Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2007). Enfim, a mensagem deste filme (em exibição na Mostra de SP) não tem nada de “inovadora”, mas a realização vale a conferida.

2 comentários:

O FALCÃO MALTÊS disse...

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André Renato disse...

Tá registrada a divulgação. Passarei lá.