quinta-feira, abril 09, 2009

Gran Torino


O mito Eastwood. Eis o que vemos na tela, em toda a sua glória. Este filme não dialoga apenas com personagens (ou tipos de personagens) anteriormente interpretados por ele, mas traz ao altar de imolação a própria persona atribuída a um dos atores mais emblemáticos do cinema norte-americano. Estão lá o Estranho sem Nome e o Dirty Harry, tanto quanto as almas envelhecidas em busca de redenção, como os protagonistas de Os Imperdoáveis (1992) e Menina de Ouro (2005). Alguns poderão achar Gran Torino mais do mesmo, mas é inesgotável a reflexão referente aos dois temas mais caros à filmografia de Clint Eastwood: a violência e a redenção. Ambos são elevados a um registro religioso, modulados pelo processo de envelhecimento e pela passagem do tempo – nos quais a morte se encontra sempre à espreita.

Os filmes de Eastwood são feitos e apresentados à maneira de um ritual: compõem uma missa na qual o profano se transfigura em sagrado no processo-limite do sacrifício. Tudo isso parece muito alto e distante, mas a epifania de Eastwood se faz a partir das vivências que formam a vida mais comum e cotidiana. Quando menos se espera, onde menos se espera e com quem menos se espera, atinge-se a Iluminação. A transcendência final que nos liberta da cadeia de erros e remorsos aparentemente insolúveis que tanto assolam o ser. Discutindo Os Imperdoáveis, eu já comparei o cineasta norte-americano ao nosso narrador mito-poético do sertão, Guimarães Rosa. Há definitivamente algo (ou muito) de parábola em tais filmes.

Sem pretensões filosóficas ou proselitistas, Eastwood compõe narrativas simples e envolventes, dotadas daquele poder de sugestão que reconhecemos nas melhores obras de sabedoria. É um cinema maduro. Extremamente. Indiscutivelmente. Clint Eastwood não é para principiantes. Pretendam estes ser “cinéfilos” ou “cineastas” (ou as duas coisas). Mas é mais acessível do que estas palavras podem sugerir. De qualquer modo, é coisa rara. O diretor de Gran Torino não nos concede soluções fáceis, previsíveis – seja no roteiro, seja na mise en scène. Ele nos engana, apenas para nos desenganar. É um processo de esclarecimento (principalmente no tocante à questão da violência) que parte das nossas próprias pulsões bárbaras, esgotando-as ao máximo e atirando-as fora – propositalmente “errando” o alvo, o que mostra ao espectador o constrangimento,

o absurdo, a impertinência de qualquer solução bárbara. “Pode tirar o cavalinho da chuva” parece nos dizer o diretor, de maneira que não deixa de ser irônica, uma vez que inevitavelmente nos lembramos do mito Clint “Dirty Harry” Eastwood. Mas o artista aqui está falando sério, no fundo. Muito sério. Gran Torino apresenta umas três ou quatro cenas antológicas, as quais nem vale a pena citar aqui (sob o risco de tentar parafrasear o sublime). Mas acredito que, qualquer um que assista ao filme e conheça um pouco que seja do mito Eastwood, reconhecerá imediatamente o valor de tais cenas. O cinema que se pratica aqui é dos mais sensíveis, mas de uma sensibilidade muito especial, que só poderia vir do mito de masculinidade Eastwood (não há qualquer paradoxo nisso). Uma lição para tempos tão brutos e macios como o nosso (agora sim, há paradoxo).

3 comentários:

Pedro Henrique disse...

Sensacional análise. Magnífico filme. É o melhor do Clint pra mim (sério).

Abs!

André Renato disse...

Valeu!

Ainda acho que Clint se supera...

monica peres disse...

André: Gran Torino me tocou de modo muito particular.
Creio que Clint se inscreveu definitivamente entre os diretores mais importantes e emblemáticos de todos os tempos pelo conjunto da obra.
Quem diria, quando 30 anos atrás víamos aquilo tudo muito parecido, com um protagonista (Clint) quase sempre igual, que ele chegaria a tanto?... Eu não diria àquela época.
Hoje é para reverenciar e respeitar absolutamente.
Gran Torino é simplesmente perfeito: como você comentou por outras palavras, do simples ao profundo, da particularidade social ao universal. Tem um quê de G. Rosa sim.
Abraço,
Mônica