terça-feira, junho 03, 2008

Praga "Neoclássica"


Reproduzo na íntegra o artigo abaixo, publicado na edição especial da Revista da Folha, chamada Morar, nesta última sexta-feira, dia 31 de maio, parte do jornal Folha de S. Paulo.

PASSADO PRESENTE
Compradores adoram, arquitetos odeiam, e o estilo neoclássico vai povoando a paisagem paulistana


por Heloísa Helvécia

O Parthenon é aqui. Da Freguesia do Ó ao Alto de Pinheiros, não há região de São Paulo, hoje, que escape de um edifício neoclássico. Como os churros da Mooca e os terraços com churrasqueira, os “neos” são sucesso de público e se alastram para outras classes de imóveis que não as do alto padrão, a despeito da gritaria de arquitetos locais.

Gritaria que não é nova, como nada é, nesta história. A polêmica já começa pelo termo, marqueteiro. “Neoclássico é um tremendo elogio para o que está sendo feito”, diz Mário Biselli, 45, professor de projeto no Mackenzie e na Belas Artes.

De fato, há distância entre esses imóveis novos com verniz velho e o neoclassicismo, que apareceu no fim do século XVIII, na Europa, em resposta à overdose de barroco e rococó. O estilo retomava o equilíbrio das linhas da estética greco-romana. Em São Paulo, Ramos de Azevedo (1851-1928) foi seu representante, atrasado e isolado.

Em termos de construção vertical, o que mais ou menos se aceita como neoclássico é o estilo que tem como emblema o francês Jacques Pilon (1905-1962). Seu edifício São Luiz, um projeto dos anos 1940, foi tombado, apesar de ser considerado sem valor cultural por muitos arquitetos.

Nos 1970, Adolfo Lindemberg espalhou a visão do que é morar com classe, com seus “neos” cor de creme e balaustradas. Se ontem seus prédios eram execrados por profissionais comprometidos com a reflexão, hoje são até poupados, distinguidos à frente de pastiches piores, que surgiram nas décadas seguintes. “Agora o que há são edifícios neogóticos-chineses-mongolóides”, batiza Sérgio Teperman, mestre pela FAU-USP. Um dos argumentos contra essa estética é o seu caráter literalmente de fachada: embalagem nobre, formulada para dar “a sensação de algo histórico e eterno, quando os revestimentos são os piores possíveis e os edifícios se deterioram rapidamente”, nas palavras de Teperman.

Associado ao luxo, o neoclássico envolve construção mais barata, com a vantagem de esconder defeitos com enfeites, segundo Mário Biselli. “Incorporadores e construtores acham fácil construir, porque é só pregar na fachada essas cornijas, essas colunas, tudo pré-moldado. Ficou feio? Põe coluna. Não deu o acabamento? Põe moldura. Já a arquitetura moderna, como é nua, trabalha com materiais bons”, contrapõe.

Um dos princiapais problemas da adoção do estilo, “além do estilo em si”, é o uso medíocre que se faz da linguagem passadista, ataca Biselli. “Ninguém sabe copiar direito uma composição neoclássica. É como tentar reproduzir a receita de um bolo, pegar um glacê e decorar. Não tem criação. Por isso, nenhum arquiteto contemporâneo vai dizer que isso é digno.”

Verdade: criticar prédio neoclássico é fácil. Difícil é achar arquiteto que o defenda. Mesmo tendo projetado vários, Gil Carvalho, da D’Ávila Carvalho Arquitetura, diz que não gosta da reprodução em série que toma conta da cidade. “Mas a gente vive de briefing, não tem como não fazer.”

Se a encomenda vem do cliente, por que o constrangimento? Qual o problema, se a elite quer morar entre colunas e arcos, emoldurada como uma deusa?

O problema é que imóvel privado também é coletivo, tem custos e reverberações públicos, dizem adversários do “neo”. Se gosto não se discute, eles querem que a paisagem urbana seja discutida, antes que termine em ruínas.

“Esse fenômeno acabou com a arquitetura paulista nos últimos 20 anos”, diz Arthur Casas. “Quando eram só prédios do Lindemberg, tudo bem, era uma bobagem, mas pontual. Depois a coisa saiu do controle, virou um bolo de noiva. É um produto arquitetônico induzido.” Casas, autor do projeto do hotel Emiliano, em São Paulo, não pretende discutir gosto. Ele questiona a falta de relação entre prédios e entornos, a desconexão entre os neoclássicos, seu tempo e seu espaço.

“Quem mora em um neoclássico deve ter carruagem na garagem. Não combina com Audi A3”, brinca o arquiteto Biselli.

“Vai além da questão de gosto”, diz Ciro Pirondi, diretor da Escola da Cidade. “Quando alguém diz que gosta do neoclássico, está dizendo que gosta de colonialismo e autoritarismo.”

O triunfo desse gosto, segundo Pirondi, mostra que ninguém sabe para que serve a arquitetura: “Cultura arquitetônica virou luxo pedante, e não forma de construção da civilização. Minha revolta com a volta ao passado é que já fizemos outra cidade, contemporânea. É como cuspir na história.”

O que há é ideologia e preconceito, na visão do argentino Pablo Slemenson, 54. nome que melhor representa o “neo” em São Paulo. “Sou arquiteto, não arquiteto neoclássico”, ele corrige, contando que, nos 80, também se alinhava contra “a arquitetura residencial burguesa”, como era moda.

Quando seu escritório foi escolhido, nos 90, para projetar a conversão do edifício da Eletropaulo em shopping, ele passou a estudar aquele prédio, de 1929. “Nasceu um profundo interesse de minha parte por Ramos de Azevedo. Fiquei maravilhado com a proporção, a volumetria, o ritmo, a ornamentação”, diz ele, que afirma ter descoberto uma tradição classicista na arquitetura paulistana.

Depois, como na faculdade ninguém estuda o Parthenon do ponto de vista de quem vai construir, Slemenson, que é formado pelo Mackenzie, foi pesquisar o estilo. “Peguei minha trouxa e fui a Paris, a Londres, a Madri. Voltei com 20 livros que ensinavam o que era arquitetura clássica e o que eram os estilos, e 2.500 fotos.” Ele é um dos responsáveis pela recuperação das fábricas de ornamentos, quando o isopor ainda não tinha entrado na indústria de fachadas. “Existiam as fábricas de pré-moldados, que faziam uma produção seriada de colunas, balaústres, para residências. A gente pegou esses caras e desenvolvemos modelos de ornamentos para edifício.”

Para Slemenson, que já projetou 15 neoclássicos, esse repertório tem tudo a ver com São Paulo. “É o oposto de uma arquitetura descontextualizada. Mas há uma polarização ideológica que distorce a discussão. Há várias confusões. Pintar um prédio de creme e falar que é neoclássico é plágio, deformação. Aí uno meu clamor contra essa arquitetura falsificada, de mau marketing.”

Falsificada ou “de referência”, como diferencia Slemenson, a arquitetura neoclássica agrada, e ninguém sabe explicar muito bem o motivo desse fenômeno tipicamente paulistano.

“Enfeite vende”, acha o arquiteto Marcio Mazza, diretor do site Arq!Bacana, lembrando que o que ontem era mármore e granito hoje é gesso e isopor. À frente do escritório MM, com um currículo de projetos premiados, Mazza se diz inconformado com a praga “neo”, que verticaliza o classicismo – uma estética horizontal na essência –, e com o desperdício de recursos. “Usam alta tecnologia não para explorar novas soluções, mas para moldar ornamentos da Grécia Antiga.”

Mazza arrisca uma tese para a gênese desse caminho de volta: poderia ser reação de cansaço em relação à arquitetura limpa. “Sim, porque menos é mais quando é bem-feito, e tivemos exemplos de arquitetura moderna malfeita, quando o menos foi menos mesmo e empobreceu a cidade.”

O neoclássico representa, na arquitetura paulistana, o que a grife americana Ralph Lauren representa na moda, quando vende camisa pólo para quem nunca teve cavalos. A comparação é de Arthur Casas, que explica: “É a tentativa de traduzir o desejo de uma classe média com dinheiro novo, que quer comprar passado heráldico.” Casas vê sinais de exaustão dessa fórmula: “Não dou quatro anos para o mercado parar de lançar isso. Os interiores estão mais contemporâneos, não casam mais com neoclássico. As pessoas estão buscando coisas naturais, sem ostentação burra.”

É a mesma aposta de Mário Biselli, segundo quem uma boa parte da sociedade já percebeu esse “golpe de venda”. Esperança idêntica à de Ciro Pirondi: “Estamos condenados a ser modernos”, diz.

Gil Carvalho também crê na decadência do modelo, em função da repetição exagerada: “Isso leva à perda da exclusividade, conceito evocado pelo neoclássico e valorizado pelo comprador.”

É por estar atrelado ao padrão de exclusividade que o estilo vem sendo estendido a outras classes de imóveis, segundo Cyro Naufel Filho, diretor da imobiliária Lopes. “Oferecemos à classe média a mesma fachada dos empreendimentos de luxo. Optamos por estilos que agradem à maioria.”

O comprador ainda associa essas linhas aos primeiros “neo”, plantados nos bairros mais valorizados, conforme Rogério Santos, diretor da Abyara. Para ele, o estilo é “atemporal” e sua aceitação tem mais a ver com os valores do morador do que com o que ele tem no banco: “Um perfil conservador sempre prefere o neoclássico”, diz.

Era inevitável que o “neo” chegasse a imóveis de classe média, diz André Cauduro D’Angelo, mestre em marketing pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor de “Precisar, Não Precisa, Um Olhar Sobre o Consumo de Luxo no Brasil” (Lazuli / Cia. Editora Nacional).

“A fachada neoclássica tornou-se um artifício tão manjado que deixou de constituir um diferencial”, fala D’Angelo. Ele diz compreender a manifestação de arquitetos contrários ao fenômeno, mas não a endossa, mesmo reconhecendo o exagero da repetição e a inadequação desse modelo estético aos dias atuais: “No entanto, essa preferência pelo neo constitui um depoimento cultural.”

Para o acadêmico, se a reprodução maciça dessa linguagem reflete também, ou principalmente, conveniências econômicas, não se pode fazer muito. “A paisagem urbana tende a ser um mosaico. É inútil tentar domesticar algo que, por natureza, é desigual. A regra é a alteridade de aparências. Só assim é possível refletir a diversidade sociocultural.” Para D’Angelo, se essa é uma estética considerada de mau gosto, ou inculta, isso não a torna menos digna de registro ou menos representativa destes últimos – e tristes – anos.

Fim do artigo.

Bem, por que estou copiando o texto acima aqui no Sombras Elétricas? A arquitetura, enquanto forma de arte e expressão cultural, obedece a textos e contextos que também permeiam o debate a respeito das outras artes – ou entretenimento – e das outras manifestações da cultura – ou da indústria cultural. Arte e sociedade, cultura e sociedade. O escopo da discussão é amplo, e muitas ligações podem – e devem – ser estabelecidas.

O texto da Folha é muito claro na discussão das características estéticas da arquitetura “neoclássica” dos edifícios residenciais paulistanos, na relação (e na pertinência desta relação) entre essa estética específica e a história do estilo denominado neoclássico, assim como na relação entre o modelo em questão e a sociedade contemporânea de São Paulo – e também na pertinência desta última relação.

Uma real e profunda reflexão sobre as “estéticas” do cinema pode ser feita utilizando-se as mesmas bases. Quantos filmes – ou filmografias, ou cinematografias – não são arquitetados sob a mesma lógica dos prédios “neoclássicos”, e ainda por cima utilizando recursos bastante similares ou equivalentes? Pense nisso.

Mas o caso da sétima arte não é tão ruim. Pois, se um filme de mau gosto nos incomoda, basta sair da sala de cinema ou desligar a TV. Agora, como não cair com os olhos, ainda que de relance, na selva “neoclássica” que infesta – para citar só um dos muitos exemplos – a marginal do Rio Pinheiros?...

6 comentários:

Pedro Henrique disse...

Eu acho legal o estilo Neoclássico. Aqui em Porto Alegre aumenta cada vez mais a procura por imovéis em edifícios assim.
Ótima reportagem.

Marcos disse...

Para quem se interessa pela discussão sobre o estilo neoclássico, sugiro leitura do artigo "A arquitetura do gosto", publicada em fevereiro pela Gazeta Mercantil, e disponível na seção "Artigos/Imprensa" do site:
www.thinkmarketing.com.br

Renato Chaves disse...

Acho muito bonito o estilo neoclássico por buscar inspiração na antiguidade clássica, porém, concordo com a reportágem no que diz respeito ao terror que fica quando utilizam o estilo na estética horizontal, pois perde-se totalmente os detalhes reais da arquitetura greco-romana.
Em São Paulo, hoje, existem algumas construções que, na minha opinião, ficaram muito bonitas quando adotaram o estilo neoclássico, podendo citar: A Igreja de São Luiz Gonzaga, na Avenida Paulista, e o Teatro Abril, na Av. Brigadeiro Luiz Antonio.
Um abraço a todos.
Renato Chaves.

Anônimo disse...

Olha, estive em São Paulo a pouco tempo e me chamou muito a atenção esses prédios com inspiração neoclássica... No meu ver quebra um pouco da poluição visual que se tem hoje na cidade de São Paulo, pelos paredões de prédios montanhas de concreto, tanto pela cor quanto pelo estilo se forma uma imagem mais suave, menos agressiva.
Também penso que os arquitetos não tiveram a intenção de imitar o neoclássico, mas o arquiteto buscou inspiração para criar um tipo de neoclássico moderno. Enfim acredito que realmente gosto não se discute! Não é possível agradar a todos.
Ótima reportagem.

Gabriela Rezende Gehm

vidah disse...

gosto do neoclassico, principalmente no aspecto cultural
creio que neo e atemporal ja ultrapassou seculos e seguira adiante, com imponencia consegue
criar respeito, adotei o neo e esta incrivel.

Daryl Steel disse...

Quando terminei o ensino médio e teve que escolher estudar em carreira universitária, duvidei entre a engenharia civil e arquitetura. Finalmente acabei escolhendo arquitetura e eu não me arrependo de minha decisão porque no futuro eu gostaria de ajudar a melhorar a cidade. Agora eu estou trabalhando em imoveis porto alegre portanto, eu estou em contato com as tendências atuais na construção e isso me faz feliz que a maioria adota o neoclássico.