sábado, junho 28, 2008

Agente 86


Graças a Deus que temos Steve Carrell. Pensar que, até poucos anos atrás, a “melhor” escolha para viver o glorioso agente Maxwell Smart seria Jim Carrey é dose... Somente Steve Carrel é dotado daquela personalidade naïf – na postura, no andar, no olhar, gestos e fala – da qual os grandes comediantes não podem prescindir. É claro que esse jeito espontâneo e meio bobo de ser remonta a Chaplin e Keaton, mas aí é que está. Se Chaplin era o parvo perdido no mundo dominado pela máquina (Tempos Modernos), Carrell é o parvo perdido num mundo de relações sociais em que o próprio homem se transformou em máquina. A graça de suas atitudes está na ingênua indiscrição, no constrangimento nunca previsto, nunca intencionado, provocado por um indivíduo que é uma criança no corpo de um homem de meia idade.

As relações dos personagens de Carrell (incluindo aí o “virgem de 40 anos” e o gerente Michael Scott) com as pessoas ao seu redor são tão atrapalhadas quanto as de Carlitos ou Jacques Tati (o saudoso Ms. Hulot) com a tecnologia. Na verdade, as relações inter-pessoais se pautam cada vez mais no mundo contemporâneo por uma mecanização calculada em busca constante e inapelável de uma “eficiência”. Eis o que se vê na agência de espionagem do CONTROLE, nesta refilmagem da genial série “Agente 86”, criada nos anos 60 por Mel Brooks e Buck Henry – que dão consultoria para esta nova produção, dirigida por Peter Segal. Não é à toa que o velho Hime (o agente robô da série original) fará uma ponta muito significativa neste filme. O próprio Maxwell Smart busca muito a eficiência no seu trabalho (e a conquista efetivamente, com muito talento). Mas é o único que convive naturalmente com seus “defeitos”, que no fundo é a sua própria humanidade.

A “falha”, em personagens clássicas como o inspetor de polícia Clouseau, o agente secreto Maxwell Smart e o super-herói Chapolim, não é colocada como um desvio do “acerto”; mas como parte intrínseca e dialeticamente relacionada à natureza humana do indivíduo. O ato de falhar simplesmente faz parte do mesmo pacote. Aí está a fascinação especial que esses (anti-)heróis exercem. A humanidade de Smart fica patente na engraçada cena em que ele “convence” o vilão brutamontes (que até então não tinha dito uma única palavra) a não matá-lo, dando conselhos a respeito dos problemas conjugais do homem, devidamente espionados. Tudo termina num abraço choroso. A humanização burlesca de contextos tradicionalmente “não-humanos” (a guerra, a espionagem, etc.), eis o diferencial de tais comédias.

Um dos filmes da série Austin Powers (de Mike Myers) tem uma cena que vai nessa mesma linha: ao passo que o super-agente Powers vai matando a esmo guardas, seguranças, capangas baratos e funcionários das instalações inimigas, vão-se intercalando cenas que mostram as notícias das mortes deles recebidas por suas esposas, o impacto nos filhos e outros efeitos “cotidianos”. Voltando ao Agente 86, a cena em que a agente 99 (a gostosíssima Anne Hathaway) consegue escapar de um “abraço” mortal desse mesmo brutamontes (um homem feioso) dando-lhe um longo beijo na boca também nos toca de uma maneira especial. Não é apenas o inesperado do ato, mas o efeito do contraste entre a “bela” e a “fera”, entre o golpe e o carinho, entre o humano e o mecânico, entre a criatividade e a automatização. Eis a importância da criação de Brooks: a força do criativo num mundo de coerções.

3 comentários:

Johnny Strangelove disse...

Infelizmente ainda não vi, mas o sucesso entre os blogueiros fazem que seja a minha proxima prioridade ...
abraços

André Renato disse...

Vale a pena! Ultimamente não tenho tido tempo de freqüentar o meio blogueiro como gostaria, mas vou procurar ver as as reações... Abraços!

Isabela disse...

Gosto do Steve, mas admito que ainda nao me animei para assistir a esse filme nao.