quinta-feira, março 12, 2009

Milk - A Voz da Igualdade


Gus Van Sant vem se tornando, sem dúvida alguma, um dos cineastas mais pertinentes da atualidade. Ele está em cena já faz algum tempo (o filme que o revelou foi Drugstore Cowboy, de 1989); mesmo assim, é estimulante acompanhar a evolução de sua carreira: cada filme novo de Van Sant chega com o impacto da primeira obra de um “enfant terrible”. É um efeito interessantíssimo e nada fácil de obter. Naturalmente, como autor (ou aspirante a autor), o cinema de Van Sant tem lá as suas idiossincrasias estilísticas, que aparecem em alguns filmes mais pesadamente do que em outros. Não é o caso deste Milk (2008).

Se, em Paranoid Park (2007) e Last Days (2005), sentíamos algumas gratuidades estéticas e – principalmente – um certo distanciamento sarcástico em relação aos personagens centrais mostrados (apesar de a câmera sempre os acompanhar de perto), nesta mais recente película o espectador há de perceber e se comover com o grande envolvimento do filme, enquanto discurso, nos acontecimentos e pessoas referenciadas – quase reverenciadas. Milk é uma sensível elegia desta personalidade tão peculiar que é Harvey Milk. Temos aqui um ótimo filme-biografia – diferente de muitos outros produzidos em Hollywood justamente pelo equilíbrio entre forma e conteúdo alcançado por Van Sant.

Milk apresenta, na essência, a assinatura artística do seu diretor; contudo, desta vez as escolhas da mise en scène estão condicionadas absolutamente em função da pertinência dramática, narrativa e psicológica das personagens. O discurso fílmico – muito visível enquanto construção, o que é típico de Van Sant – apresenta-se aqui servindo exclusivamente ao engrandecimento do protagonista. Engrandecimento esse que é bastante maduro, ou seja, não há nada aqui de emotiva e excessivamente condescendente, tampouco de uma paródia tragicômica disfarçada de “mostrar-o-lado-humano-da-personagem” – coisas que vemos tão freqüentemente em cinebiografias.

O filme deixa muito claro que Harvey Milk é nada menos do que um herói. Por isso, esta película coloca-se no lado oposto às duas últimas produções anteriores do cineasta, citadas mais acima. É interessante compará-la com o “Benjamin Button” de David Fincher – outro filme que, à sua própria maneira, distancia-se da produção mais recente do seu diretor – para entendermos o como se faz uma biografia elegíaca cinematográfica de verdade (seja ficcional ou baseada em “fatos reais”). Milk obedece bem a muitos dos gostos hollywoodianos sem apelar para muitos dos cacoetes hollywoodianos. Logicamente, o autor de Elephant (2003) não está fazendo concessões (como pareceu tanto ser o caso mais recente de Fincher).

Gus Van Sant está, como em Gênio Indomável (1997) e Encontrando Forrester (2000), assumindo uma posição claramente subjetiva e dotada de um juízo de valor fortemente positivo em relação aos personagens mostrados, arrastando carinhosamente o espectador para esta rede de identificações. Tudo isso está muito claro na própria tessitura narrativa, dramática e audiovisual do filme – pois não se trata aqui de ficar especulando sobre as intenções do “autor”. Pela primeira vez em quatro anos, a câmera de Van Sant identifica-se intelectual e afetivamente com o protagonista, talvez com uma força nunca antes experimentada.

Como cinema político / politizado, Milk consegue fazer frente às melhores produções de Costa Gravas, pensando no calor, no envolvimento quase pedagógico, panfletário ou proselitista (no melhor sentido) do discurso do filme com as lutas e ideologias retratadas. Este filme corre o “risco” de acabar se tornando um modelo para o gênero. Apesar de tudo, Gus Van Sant não é o único responsável pela força fotogênica e “cinematogênica” desta obra. Uma parte bastante considerável dela responde pelo nome de Sean Penn. Um grande artista não faz arte; ele vive arte, ele é arte. Van Sant, com este filme, chegou um passo mais perto desse ideal. Sean Penn já está lá.

2 comentários:

Pedro Henrique disse...

Não gostei do filme não. Esse artista (Gus Van Sant) nunca me enganou!

André Renato disse...

Bem, este filme a mim enganou! Espero que o diretor continue assim...