terça-feira, abril 17, 2007

Ironias


O pintor espanhol Francisco Goya (1746-1828) é um daqueles artistas cuja peculiar visão de mundo e de além-mundo não tem piedade para com os nossos olhos: seus quadros conjuram imagens que, quando familiares, concentram-se em aspectos digamos “incômodos” (a feiúra, o grotesco, o vazio espiritual, a violência, a mesquinhez); quando, por outro lado, o pintor dá tintas à sua imaginação fantástica, somos presenteados com as mais delirantes visões de um maravilhoso assustador (como o seu “gigante” na beira do mundo).

E. H. Gombrich diz, a respeito dos retratos pintados pelo mestre espanhol – como o do Rei Ferdinand VII, reproduzido acima: “Ele faz as suas expressões (as das pessoas retratadas) revelarem toda a vaidade e feiúra, a sua ganância e o seu vazio. Nenhum pintor de aristocratas, antes ou depois dele, chegou a deixar um registro assim de seus patronos”.

Veja-se como o historiador interliga os vocábulos “vaidade” e “feiúra”, como se a feiúra decorresse da vaidade, ou como se a vaidade não se importasse com a presença da feiúra para dominar o ânimo de uma pessoa. Quantos artistas, de qualquer das diferentes formas de arte representativa (pintura, escultura, teatro, literatura, fotografia e cinema), foram tão a fundo, ou sequer tiveram a preocupação de desmascarar a pequenez travestida de grandeza do espírito humano, especialmente em determinadas classes sociais? Resposta ainda mais difícil terá a seguinte pergunta: Qual é a parcela do público que perceberá e – mais difícil ainda – apreciará o sentido crítico dos retratos de Goya? Acredito que poucas pessoas. Será que o próprio Rei Ferdinand VII deu-se conta da “zombaria” que Goya perpetrou em seu retrato? Também acredito que não; caso contrário, o retrato muito provavelmente não teria sido aceito nem ficaria conhecido.

Eis a fina, sutil ironia praticada por Goya: o ridículo das pessoas impede que elas reconheçam o seu próprio ridículo, captado em belas tintas pelo grande artista. Não tenho dúvida de que o Rei Ferdinand VII achou o seu retrato muito “lisonjeiro”. Repito: para que haja tal efeito, a ironia tem que ser muito sutil. Se olharmos para o quadro do Rei Ferdinand VII de uma certa distância (ou se olharmos para uma reprodução pequena, como é o caso aqui), o que mais nos chamará a atenção é a postura majestosa do rei, em seu majestoso traje real. Os mais sensatos já poderão perceber aí a vaidade vazia e insolente, porém, os partidários ideológicos e culturais do rei ficarão fascinados com a “grandeza” real. Agora, ao olharmos com bastante atenção para os detalhes do rosto de Ferdinand VII (a curva dos olhos, da boca, o nariz, as bochechas coradas e até mesmo o cabelo caído sobre a testa), perceberemos com bastante clareza “a vaidade e a feiúra, a ganância e o vazio”. O rosto de Ferdinand VII revela somente um fidalgo mimado e petulante.

Será que um “fidalgo mimado e petulante” de nosso próprio tempo, ao ver a pintura acima, seria capaz de reconhecer e aceitar esse fato? Afirmo mais uma vez que (provavelmente) não, e como argumento cito a recepção que a obra do grande escritor brasileiro Machado de Assis teve em sua época.

A ironia na literatura de Machado de Assis (1839-1908) é a tradução mais perfeita da ironia na pintura de Goya. Como o mestre espanhol, o nosso “bruxo” procurou desmascarar impiedosamente as classes dominantes no Brasil imperial e escravocrata. Contudo, esse desmascarar só passou a ser compreendido uns 50 anos após a morte do escritor. Quando “caiu a ficha” para os historiadores e críticos literários, Machado passou de escritor medíocre a maior e mais revolucionário escritor brasileiro de todos os tempos (!) Peguemos o famoso romance Dom Casmurro: até hoje, para algumas pessoas, Capitu é a “vilã” da história; é difícil reconhecer a vilania do ciúmes e do machismo de Bentinho porque muitos homens e mulheres também são ciumentos e machistas. Fica mais difícil ainda as pessoas julgarem Bentinho, se observarmos o fato de que ele se apresenta o tempo todo como um cavalheiro culto, bondoso, ingênuo, bem-educado e bem-nascido. Por outro lado, Capitu, coitada, não passa de uma “alpinista social”... Neste sentido, quantos Bentinhos não existem até hoje em nosso meio e passam completamente despercebidos e impunes?...

continuação de Ironias

Tropas Estelares (EUA, 1997, dir.: Paul Verhoeven)
Como exemplo do aspecto mais peculiar na obra de Machado de Assis, reproduzo o trecho de um outro romance – Memórias Póstumas de Brás Cubas – mas cuja ironia é da mesma natureza que em Dom Casmurro:

“Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem não souber que ele possuía um caráter ferozmente honrado. (...) Argüiam-no de avareza, e cuido que tinham razão; mas a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era muito seco de maneiras tinha inimigos, que chegavam a acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste particular era o de mandar com freqüência escravos ao calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas, além de que ele só mandava os perversos e os fujões, ocorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.”

Aqui, Brás Cubas procura defender o seu cunhado Cotrim. Mas os seus argumentos são um mais absurdo do que o outro. Neste pequeno trecho se acha incrivelmente concentrada toda a falácia e a hipocrisia, enfim, a desfaçatez que nossas elites historicamente possuem – como se pode ver. O fato de não se poder “honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais” é exatamente o argumento utilizado pelos criminosos nazistas no tribunal de Nuremberg: “eu só estava cumprindo ordens...” Quantas barbaridades não se fazem até hoje sob a justificativa de que “é apenas o meu trabalho...”? Entretanto, o mais importante de atentarmos aqui é: Quantas pessoas, hoje, que tenham o mesmo caráter, ideologia e (ou) classe social de Cotrim e de Brás Cubas, não concordariam com a argumentação do narrador, e assim, passariam longe de entender de fato a literatura de Machado de Assis?

Enfim, o cinema. Na “silver screen” também temos (raros) exemplos da ironia e do sarcasmo de Goya e de Machado de Assis. O exemplo que, para mim, é mais evidente, encontra-se no longa Tropas Estelares (“Starship Troopers”, EUA, 1997, dir.: Paul Verhoeven). Para muitos, este será apenas um filme de ação desprezível e tolo, apegado a efeitos especiais e ao caráter épico mais pueril; para outros, que o assistirão com olhos mais perscrutadores, esta será uma produção descaradamente “nazista”, que faz a apologia de uma sociedade futura dominada pelo militarismo beligerante que busca sempre “bodes expiatórios”. Estes últimos espectadores trarão como argumento o fato de alguns planos de Tropas Estelares serem nitidamente inspirados em filmes de Leni Riefenstahl, a “cineasta de Hitler”. Contudo, alguns espectadores – com visão ainda mais profunda e mais sensata – reconhecerão a sutil ridicularização que Paul Verhoeven faz de toda uma cultura que é, no fundo, nazi-fascista. O diretor de Robocop (outro filme profundamente sarcástico) critica com muita ironia uma mentalidade muito próxima da dos falcões de George W. Bush, a partir de um de seus maiores veículos de expressão na cultura de massas: o filme hollywoodiano de ação, de guerra, de efeitos especiais. Assim, ele acaba ironizando também esse mesmo tipo de cinema. Temos que bater palmas para tal façanha, que está muitos anos-luz à frente da sisudez pretensiosa e intelectualizante de películas como Dogville.

Os personagens de Tropas Estelares são tão frívolos quanto Brás Cubas ou quanto aparenta ser o Rei Ferdinand VII. Paul Verhoeven usa o filme de caráter épico para desconstruir a si mesmo – desconstruindo também a cultura por trás dele – assim como Machado de Assis usa o romance folhetinesco com a mesma finalidade e Francisco Goya usa o retrato palaciano para os mesmos fins desmascaradores.

No entanto, ainda há tantas pessoas que acham que um “robocop” seria a solução perfeita para os problemas de criminalidade e violência no Brasil...

sexta-feira, abril 06, 2007

Lendo e Aprendendo


Entrevista concedida pelo lingüista e filósofo búlgaro Tzvetan Todorov para a revista francesa Télérama e reproduzida por Jorge Coli na Folha de S. Paulo:

(Pergunta): “No seu último livro (“La Littérature em Péril”, A Literatura em Perigo), o sr. Diz, a propósito do ensino da literatura, que, “na escola, não se ensina aquilo que os livros dizem, mas aquilo que dizem os críticos. O senhor pode explicar a sua opinião?”
(Todorov): “Há algum tempo que, na escola, pararam de refletir sobre o sentido dos textos e passaram a estudar de preferência os conceitos e métodos de análise. Nesse sentido, é possível dizer que se estudam as teorias dos críticos, e não as obras dos autores.
Ora, para nós, ignorante é quem não leu “Madame Bovary” (de Flaubert) ou “As Flores do Mal” (de Baudelaire), e não quem não sabe, por exemplo, distinguir focalização interna de focalização externa.
Estou convencido de que, para aceder à “grande literatura”, deve-se primeiro aprender a amar a leitura. Para tanto, passar pela literatura de juventude parece-me ser a via mais indicada. Eu mesmo, há muito tempo, comecei a ler versões simplificadas dos clássicos em búlgaro.
“Os Miseráveis” (de Victor Hugo) não tinha mais do que umas cem páginas. Isso não me impediu de abordar o texto completo do romance alguns anos mais tarde.
Desse ponto de vista, eu recomendo sempre “O Conde de Monte Cristo” (de Alexandre Dumas) ou, por que não?, as aventuras de Harry Potter.”
(Pergunta): “Quais os conselhos para um jovem estudante que deseja se lançar nos estudos literários?”
(Todorov): “Antes de tudo, não confundir os meios e os fins. Os fins da leitura de textos literários são os de melhor compreender o sentido deles e, por meio deles, o que nos dizem da própria condição humana.
Os meios são todos os métodos de aproximação crítica, que podem nos permitir ler melhor, com a condição de não formarem uma cortina de fumaça diante dos textos. O que aconselho, portanto, é nunca perder de vista os textos literários neles próprios e, sobretudo, os grandes textos.”

Jorge Coli, no texto que desenvolveu em torno desse assunto, diz: “Esse é um caso sintomático, no qual a especulação intelectual prescinde o objeto. (...) Quantos leitores de (Walter) Benjamin, que conhecem e citam suas referências a Baudelaire e Proust, leram, de fato, Baudelaire e Proust?”

Na Universidade, sofri muito com esse tipo de “especulação intelectual”. Nas disciplinas de literatura que cursei, parece que há uma lei implícita de que é proibido fazer uma reflexão pessoal sobre o texto literário; diz-se que isso não é científico, não é metodológico. Para muitos professores que tive, “científico” seria “papagear” o discurso deste ou daquele crítico, teórico ou historiador, os quais também têm de ser escolhidos com muito cuidado, pois se o aluno tiver a temeridade de se abrigar à sombra de um pensador que não esteja na moda do dia, também ganhará nota zero. Uma das poucas exceções positivas que vivenciei, foi justamente numa disciplina de cinema, na qual o professor (um dos poucos grandes mestres que tive na Universidade) fez a questão de deixar bem claro e enfático que queria que fizéssemos uma análise pessoal do filme em questão; disse com autoridade que não queria ler coisas do tipo: “De acordo com o filósofo Nietzche...”, pois se quisesse saber as idéias de Nietzche, ele leria os livros de Nietzche, e não o trabalho do aluno. No trabalho do aluno, ele queria conhecer quais as idéias que o aluno tem. Sabedoria rara no meio docente acadêmico.

Não sou, é claro, totalmente contrário à metodologia científica, ou a citações que enriquecem a discussão de um determinado objeto. A fortuna crítica tem a sua grande importância e contribuição para o estudo de uma obra de arte. Mas quem está, ou já esteve recentemente por dentro do meio acadêmico, sabe muito bem o “perigo” que sofre a Literatura (e também o Cinema), de que falam Todorov e Coli. Mesmo fora das escolas, certas críticas de filmes que se lêem por aí são tão apegadas a clichês metodológicos daquela “especulação intelectual que prescinde o objeto” que fica-se com a impressão de que o crítico não viu o filme. Se viu, não precisava ter visto, para fazer críticas assim...

P.S.: A (des)propósito: Todorov não parece o Barbosa, do saudoso “TV Pirata”?