segunda-feira, maio 31, 2010

O Escritor Fantasma


A força expressiva do cinema de Polanski revela-se em pequenos detalhes. Melhor dizendo: em pequenos gestos. Quem poderá esquecer o plano final de O Bebê de Rosemary (“Rosemary’s Baby”, 1968), no qual vemos a resignada Mia Farrow balançar maternalmente o berço do anti-messias? Um filme como O Pianista (“The Pianist”, 2002) – em nossa opinião, uma das obras-primas máximas do diretor e que colocaríamos facilmente dentre os melhores da década passada – é repleto de mínimas façanhas sub-épicas que caracterizam, num misto paradoxal de cinismo e condescendência, a pobre resistência do herói polanskiano frente a um mundo que está muito, muito além do escopo de poder das suas frágeis decisões.

Lembramos particularmente dois momentos exemplares desse grande e significativo filme: 1. a cena que mostra o personagem de Adrien Brody, nos escombros de uma cidade absolutamente devastada pela guerra, tentando abrir desastradamente uma última lata de alimento em conserva, a qual escorregará de suas miseráveis mãos e rolará até aos pés de um surpreso oficial nazista – tudo mostrado por um belo movimento de câmera; 2. o início do filme (momento em que sua alma se revela), que apresentará o protagonista (o mesmo Brody) se recusando a parar de tocar o seu piano nos estúdios da rádio de Varsóvia, sob o barulho cada vez mais próximo das bombas que anunciam a invasão germânica.

O Escritor Fantasma (“The Ghost Writer”, França / Alemanha / Reino Unido: 2010) não terá certamente o quilate das duas películas acima citadas; mas revelará, mesmo assim, algo da maestria do seu autor. Um plano que expressa muito da simbologia do filme é aquele que mostra o pobre jardineiro varrendo e tentando juntar inutilmente sobre uma carriola as folhas de uma vegetação rasteira inevitavelmente arrastadas pelo vento constante. Isto se passa sob os olhos irreverentes do “escritor fantasma” (o inominado personagem interpretado por Ewan McGregor), contratado para pôr em narrativa literária a vida de um ex-primeiro ministro britânico, Adam Lang (Pierce Brosnan).

Isolado na abjeta e friorenta ilha habitada pelo político, cuja atmosfera se casa bem com o clima psicológico ali reinante, o jovem escritor logo descobrirá que não será tão fácil juntar as folhas que compõem a trajetória pessoal e política do seu cliente, pois ventos escarninhos mostrarão que foi contratado para fazer um trabalho de Sísifo. E assim como ocorre com o herói da mitologia grega, a astúcia do escritor fantasma (em descobrir a “verdade”) será punida como uma afronta intolerável à potência inquestionável dos deuses. No caso, as “divindades” caprichosas da geopolítica contemporânea: Lang está sendo acusado, por seus adversários políticos, de ter cometido crimes contra a humanidade, na “guerra ao terror”.

Em paralelo com a cena do jardineiro, o plano final do filme também escarnecerá do trabalho do pobre mortal, com outras folhas espalhadas num jogo entre o que é mostrado na tela e o hors champ (o fora-de-campo) cuja beleza e significado não se via há tempos no cinema. Pode-se dizer que o filme inteiro vale por esse único plano. Se O Pianista revela a sua arte de modo sublime e epifânico logo na primeira cena, O Escritor Fantasma a revelará na última. Assim, a pergunta que se coloca é: qual o limite na causalidade dos atos e escolhas de um único indivíduo, uma vez colocado perante forças e estruturas mais poderosas do que ele?

O trabalho inútil. Inútil por ser a construção e consolidação de uma farsa, uma encenação sem efeitos modificadores sobre o que chamamos de realidade. O trabalho do personagem de McGregor, tanto aquele para o qual ele foi contratado (a biografia do político de acordo com os interesses do próprio: “imprima-se a lenda”) quanto o que deseja realizar efetivamente (desmascarar a persona e revelar ao mundo quem o sujeito é intrinsecamente), não deixa nunca de ser mesmo o de um fantasma, em mais de um sentido. Ele pode assombrar, pode provocar alguns sustos, algumas sugestões, mas não influirá na história propriamente dita e acabará exorcizado.

O filme todo se passa sob uma sensação de incômodo. A profissão de “ghost writer” já traz um incômodo para o próprio personagem: “You’re not a proper writer” (Você não é um escritor propriamente dito), diz a ele a mulher do seu cliente. O trabalho de McGregor é indigno e deve ser levado a cabo sob o manto da invisibilidade; sua tarefa é a de uma engenhosa trapaça com vistas a compensar a falta de “dotes” literários daquele que pretende lançar uma autobiografia. Como ele mesmo diz, não é conveniente que escritores-fantasmas apareçam em noites de autógrafos, é como se o noivo levasse a amante para a festa de casamento. O incômodo se traduz em vergonha, em constrangimento, em (falso) pudor.

O incômodo também se manifesta na estranheza com que o inominado vai penetrando gradativamente na ilha, na casa, na vida política, na vida matrimonial (!), em todo o universo do ex-primeiro ministro. É neste ponto que começa a prometeica “afronta aos deuses”: o inominado deixa de ser um fantasma-testemunha para se envolver de corpo e alma no cenário e na história. E ele sabe que está rompendo como que uma regra, e sabe também os riscos que corre; diz ele à secretária do político, em determinado momento, que não gosta de dormir na casa do cliente, pois isso quebra o distanciamento necessário para que a tarefa do escritor-fantasma seja efetiva.

É dessa tensão entre o familiar e o estranho, entre o corpo presente e o fantasma, entre o mito e o histórico, entre a mentira e a verdade, entre o herói “mortal” e as potências “divinas”, que o filme retira a sua força narrativa e expressiva. O interessante é que, aqui, não há qualquer metafísica, ligando-se O Escritor Fantasma mais a Chinatown (1974) do que a O Inquilino (“The Tenant”, 1976), O Nono Portal (“The Ninth Gate”, 1999) e o já citado Bebê de Rosemary. Temos uma farsa política com uma atmosfera que sugere, mas bem de leve (o que, no fundo, é muito mais assustador), algo de fantástico: a cena de abertura, que mostra um carro desocupado dentro de uma balsa, atrapalhando o desembarque dos demais, já vai criando tal estranhamento.

E a câmera de Polanski, fixada no automóvel, atribui a ele um quê de coisa morta, de cadáver a ser retirado da cena do crime. Ao longo do filme, entenderemos a extrema importância diegética desse veículo, coerente com a primeira cena tanto em sentido denotativo quanto no simbólico. Lembramo-nos de Dante: aqueles que ultrapassam o portal do inferno devem deixar para trás toda esperança (A Divina Comédia). Ironia: eis um efeito que o merchandising pago pela BMW certamente deixou de calcular. Essa questão do “portal” é própria aos filmes de Polanski (indo além dos títulos): temos neles indivíduos que ultrapassam temerariamente limites bem estabelecidos, a partir dos quais não há mais volta.

Contribui muito para a personificação do automóvel as suas próprias características antropomórficas – principalmente os faróis / olhos (coisa já muito bem explorada por John Carpenter em Christine – 1982). Neste aspecto, outro momento de O Escritor Fantasma muito próprio do seu fantástico “materialista” (não confundir com o gênero do “realismo mágico”) é um diálogo entre McGregor e o adversário de Lang. Este diz que a conversa está sendo gravada e, para confirmar, vira-se para o seu capanga que responde, dentro de um carro, apenas com um piscar de faróis. A cena é noturna e o espectador não vê o sujeito dentro do veículo. Assim, para todos os efeitos, é literalmente o carro quem responde.

Uma cena simples e de grande sabedoria cinematográfica, trazendo interessantes efeitos cômicos e estéticos. Finalmente, neste filme Roman Polanski retoma e atualiza a discussão sobre o duplo, que já era elemento central em O Inquilino. Ali, o pobre arquivista (interpretado pelo próprio diretor) viverá a contragosto os passos da jovem que ocupara o apartamento para o qual ele acaba de se mudar e que tivera uma morte misteriosa. Aqui, o inominado tomará o serviço, o automóvel e o quarto do escritor-fantasma que havia sido originalmente contratado e que morrera também em circunstâncias misteriosas; as roupas dele ainda se encontram no armário (assim como vemos em “The Tenant”). Sem contar o duplo “Inominado” / Adam Lang. Esperamos que este não seja o último filme de Polanski.

5 comentários:

Wally disse...

Ao que parece, é um filme de minúcias - como todos de Polanski. Quero muito ver.

Anônimo disse...

Bela análise! Vai do particular ao geral numa facilidade extrema. <ais uma vez, parabéns.

WANDERSON LIMA

André Renato disse...

Valeu, colega!

Vamos ver agora o que a justiça norte-americana vai fazer com Polanski...

Pedro Henrique disse...

Um filmaço! Num ano de vacas magras, é um dos melhores.

A câmera de Polanski é eletrizante - a sequência na embarcação é sensacional.

Libertem Polanski!

Jefferson Cardoso disse...

Acabei de descobrir teu blog por acaso, mas gostei muito do que ví. Estou seguindo.
Já estava curioso para ver esse do Polansky, dps do seu post...