terça-feira, março 04, 2008

Rambo 4


Bota na conta do papa...

São incríveis as similaridades entre Rambo 4 (EUA, 2007, dir: Sylvester Stallone) e Tropa de Elite (Brasil, 2007, dir.: José Padilha). E as similaridades são tais, que será um exercício bem curioso ver e analisar a recepção dessas duas obras, principalmente dentre os meios “cultos”. É natural que aqueles que taxam o filme de Padilha de “fascista”, também presentearão com o mesmo adjetivo a nova produção de Sylvester Stallone (o que revela, como já se discutiu, o “fascismo” do próprio crítico). Agora, quem eventualmente der credibilidade ao filme do Capitão Nascimento, e não ao de John Rambo, parecerá mais fascista ainda (do tipo xenófobo). O fato é: dentro do que esses dois filmes têm em comum (apesar das óbvias diferenças), parece-me racionalmente impossível qualificar apenas um (qualquer que seja) e desqualificar o outro.

Primeiro porque, antes de mais nada, nenhum dos dois é “fascista”. É preciso acabar com esta miopia intelectual de calouro universitário que ouve ou lê duas linhas de um Foucault ou de um Adorno da vida e já passa a se considerar o detentor de todas as verdades esclarecidas. Já falei do filme de Padilha, por isso, vamos nos concentrar aqui em “Rambo 4”. Independente da ideologia que o seu filme carrega (pois toda e qualquer forma de discurso é prenhe de ideologia e de visão de mundo), o que Stallone mais procura destacar é uma realidade que já mergulhou e se perdeu tanto no abismo de uma guerra ideológica, que a única coisa que sobrou e que continua sendo praticada (a única frente de batalha) é a mais pura, insensata e gratuita matança.

Depois que se permite que a coisa chegue neste ponto, torna-se no mínimo uma ingenuidade (e uma ingenuidade muito alienada) ficar discutindo filosoficamente as causas, os efeitos e as ideologias, o que é certo, o que é errado, etc. Ingenuidade ridiculamente pedante, exatamente como a dos missionários (em “Rambo 4”) e como a dos universitários em “Tropa de Elite”. É incrível o como, de uma maneira extremamente preconceituosa, ambos os tipos se acham intelectual e moralmente superiores aos soldados que têm que fazer o serviço sujo que a própria sociedade lhes relegou (Rambo aqui, “aspira” André lá); é a mesma atitude que se vê em muitos críticos. De qualquer maneira, numa situação-limite, deve-se fazer o que é necessário, e não o que é “certo”. É isso o que fazem Capitão Nascimento e John Rambo.

Agora, antes que me chamem de “fascista”, eu me explico: a verdadeira sabedoria aqui é não permitir, de forma alguma, que a situação de “guerra” (fisica, ideológica ou moral) chegue a este ponto. Mas os esforços que a sociedade como um todo exerce para evitar a catástrofe total ainda deixam muito, muito a desejar. Baseando-me no mesmo Adorno (que não passa de um adorno na boca de muita gente por aí), no magnífico ensaio “Educação após Auschiwitz” (do livro “Educação e Emancipação”), eu digo que não adianta sermos pacifistas agora no momento em que o Terceiro Reich já está invadindo a Polônia, quando não fomos pacifistas no momento em que o Imperialismo europeu devastava África e Ásia (causa mais remota da Primeira Guerra Mundial, que por sua vez é a causa mais remota da Segunda), e no momento (também na passagem do século XIX para o XX) em que se desenvolvia a plenos vapores nas escolas alemãs uma educação, uma pedagogia, uma cultura que acabaria culminando no nazismo (eis a tese de Adorno).

Repito: não adianta fazermos vista grossa para o adolescente que adora praticar o “bullying” e, depois que ele se tornou um carrasco na fase adulta, queremos convencê-lo de que não está no caminho certo... Como vovó já dizia, educação vem do berço. Será que é tão difícil as pessoas enxergarem tais coisas? Como eu fico triste e decepcionado em ver certas reações de pessoas bastante “inteligentes” a filmes como “Rambo 4” ou “Tropa de Elite”. Há uma cena muito sutil na película de Sylvester Stallone: o missionário-chefe diz muito arrogantemente a Rambo – depois de este ter dizimado uma patrulha que pretendia matá-los e estuprar a única mulher do grupo – que ele podia pensar que o que fizera era certo, mas não é... matar nunca é certo. Rambo não diz nada. Não diz nada, porque não pensa em nada. E não pensa em nada porque é um brutamontes estúpido e alienado? Não. Não diz nada porque não há o que dizer.

A arrogância e a cegueira do missionário estão além de qualquer argumento em contrário que pudesse ser eficaz. E Rambo não diz nada, porque sabe que, naquela situação, o discurso não vale nada; é uma situação-limite que pede a apenas ação. O que o missionário não é capaz de enxergar é que a atitude de Rambo não se baseia em ideologia ou moral (o certo e o errado), mas na mais pura pragmática, a pragmática da sobrevivência numa situação-limite (que não é a coisa mais importante de tudo, afinal?). O missionário só entende do seu próprio universo de experiências, do seu próprio mundo confortável do Colorado, de suas próprias idéias que são muito bem adequadas àquele mundo. Mas o mundo de Rambo é outro. Rambo está no Coração das Trevas (“The Heart of Darkness”: o filme ressoa bastante o romance de Joseph Conrad e a sua adaptação mais famosa, no filme “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, inclusive na temática do barco subindo o rio e mergulhando no coração das trevas).

O eu do missionário, que se julga tão esclarecido, não é nem um pouco capaz de se abrir e procurar compreender (o que não quer dizer “concordar” com) a visão do outro, a experiência e o universo do outro. É a mesma “cegueira” que contamina os universitários em “Tropa de Elite”, assim como muitos intelectuais e críticos de cinema. Esta cegueira é a que José Saramago satirizou tão bem no romance “Ensaio sobre a Cegueira” (cujo filme, dirigido por Fernando Meireles, está para sair). Naquela cena, o missionário não percebe que Rambo, na verdade, não acha que suas atitudes são certas, nem que são erradas. Nossa “inteligentzia” mesquinha ainda se baseia numa glamourização da violência “revolucionária” do bandido-herói (basta ver o “heroísmo” moderno das FARC, de Hugo Chávez, do Osama Bin Laden que teve a coragem de atacar o coração do capitalismo mundial, etc).

Assim, ninguém reclama das selvagerias perpetradas nos filmes dos irmãos Coen, de Quentin Tarantino, de David Cronenberg, ou em “Cidade de Deus”. Mas quando a violência vem das estruturas que mantêm o poder – os militares norte-americanos (Rambo) ou a polícia brasileira (BOPE) – o policiamento ideológico já cai matando em cima... Ora, por um acaso violência não é violência, algo moralmente execrável por si só? Ou será que certas violências são justificáveis? Olha o perigo... sinto cheiro de suástica aí... Por que “Cães de Aluguel” ou “Kill Bill” não são fascistas, mas “Rambo 4” e “Tropa de Elite” o são? Por uma mera questão estética? Convenhamos...

Vamos crescer, gente, por favor!...

domingo, março 02, 2008

Periódicos de Cinema no Brasil


Num país em que é tão parca a quantidade das salas de cinema e a variedade das fitas que elas exibem, acho que é demais reclamar da precariedade da bibliografia sobre a Sétima Arte, não? Mesmo assim, eu já reclamei aqui do descaso que o mercado editorial tem em relação a certos livros fundamentais. Agora, é a vez de reclamar do triste estado das bancas de jornais... Simplesmente não há (pelo que já pude ver), neste país, uma única revista de cinema que junte duas características essenciais: 1. que seja (pelo menos majoritariamente) direcionada ao público que vê cinema, isto é, à recepção e apreciação de cinema (o que já nos faz descartar a Revista de Cinema, com muito conteúdo voltado para a produção de filmes); 2. que possua volume, qualidade e distribuição que vão além do minimamente restrito e limitado; algo como (guardadas as devidas proporções, é lógico) a clássica revista francesa Cahiers du Cinéma. Não dá para ficar (só) com a Revista Set, não é? Convenhamos...

A Revista Set (a mais bem distribuída) é muito gossip; é a Revista Contigo dos meios cinematográficos. A Revista Paisá tem qualidade, mas não tem volume (são poucas páginas) e eu só consigo encontrá-la em algumas bancas das regiões culturalmente mais nobres da cidade de São Paulo (Av. Paulista, etc, ou seja, a distribuição é muito restrita). E é isso, só isso... De resto, o que se escreve sobre Cinema (principalmente críticas de filmes) em revistas de interesse mais geral e em jornais é muito pouco, e muitas vezes de pobre qualidade. Mas, graças a Deus, existe a Internet. Antes de mais nada, quero declarar que não gosto de ler coisa alguma em uma tela de computador. É extremamente desconfortável e cansativo. Acredito que o valor da Internet é o da consulta rápida, um guia de referências. Entretanto, todos nós sabemos que a rede, principalmente os blogues, são o meio de longe o mais acessível, versátil e de grande amplidão para que se faça justiça com as próprias mãos.

Ou seja, se o Brasil é paupérrimo em periódicos impressos sobre cinema, vamos todos para a Internet, escrever e ler tudo o que desejaríamos encontrar nas bancas de jornais. A Internet é a Canaã da ideologia punk do “faça você mesmo”, sem depender do “sistema”. Por isso, eu afirmo com a maior certeza do mundo: no Brasil de hoje, as melhores reflexões sobre a Sétima Arte estão na rede mundial de computadores. As melhores reflexões, seja em natureza (comentários, críticas, pesquisas, notícias, etc), seja em qualidade (embora também haja muita coisa medíocre ou mesmo ruim, naturalmente), seja em quantidade (haja tempo para pesquisar e ler tudo o que há). No meio de tudo, há sites e blogues de cinema que são verdadeiros modelos, poderiam rivalizar com as grandes revistas estrangeiras. Imagine se a coisa fosse impressa e bem distribuída... É impossível eu citar e comentar, no espaço de uma única postagem, tudo o que eu já vi de bom na rede. Por isso, apresento agora só alguns poucos exemplos, os mais essenciais, os de qualidade mais inquestionável, aqueles que renovam a todo o momento a minha paixão pela Sétima Arte e a minha esperança na reflexão e discussão de Cinema neste país (ainda que somente on-line):

Revista Cinética:
http://www.revistacinetica.com.br/
Críticas e matérias altamente especializadas, dando atenção considerável para a análise dos elementos formais de um filme (a sua linguagem).

Filmes Polvo:
http://www.filmespolvo.com.br/site/
Revista deliciosamente acadêmica. Tem um layout muito criativo, bonito e prático. É dividida em várias seções, cada uma assinada por um colunista, que discutem os aspectos dos mais variados em relação à Sétima Arte. Em poucos lugares eu encontrei tantas reflexões, e tão abrangentes (envolvendo cinema com: filosofia, literatura, artes plásticas, música, etc). Altamente recomendável.

Contracampo:
http://www.contracampo.com.br/
Ótimas críticas de filmes, volumosas como as da Revista Cinética. É triste ver os parcos parágrafos que os jornais impressos de hoje dedicam à suposta crítica de cinema, ainda mais se nos lembrarmos dos textos clássicos do passado, como os de Paulo Emílio Salles Gomes no extinto (não é de se surpreender) Suplemento Literário do Estado de S. Paulo. Pena que a Contracampo não é atualizada com muita freqüência.

Zeta Filmes:
http://www.zetafilmes.com.br/
Críticas volumosas e apaixonadas (com surpreendentes insights). Já foi elogiado por Jorge Coli na Folha de S. Paulo.

Setaro’s Blog:
http://setarosblog.blogspot.com/
Assinado pelo jornalista e professor André Setaro. Contém muitas postagens que são verdadeiras aulas sobre a Sétima Arte.

Reduto do Comodoro:
http://redutodocomodoro.zip.net/
O famoso blogue do cineasta Carlos Reichenbach. Um de seus links contém o maior inventário de sites e blogues brasileiros de cinema da Web, todos pesquisados e visitados pelo autor:
http://www.olhoslivres.com/links.htm

Por enquanto é isso aí. Boa leitura. E viva o Cinema! E viva a World Wide Web!

sábado, março 01, 2008

Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet


Tim Burton é, definitivamente, o detentor atual do cetro de Georges Méliès. Mais do que qualquer outro diretor contemporâneo que queira se embrenhar pela fantasia, provocadora da fascinação que fez o Cinema nascer como arte e como entretenimento (e, conseqüentemente, como indústria). Às vezes, costuma-se relacionar o caráter autoral da obra de Burton com o caráter “impessoal” da indústria de Hollywood como se fossem óleo e água. Mas os conectivos que se devem usar nesta associação não são os do tipo de “porém” ou “embora”; e sim aqueles que dizem “pois” ou “portanto”. Pois o cinema de Burton é, por natureza, um cinema “comercial”. E a arte do diretor não está (apenas) em injetar conteúdos “profundos” em seus filmes feitos sob encomenda. Está sobretudo em fazer uma arte da melhor qualidade utilizando-se muito criativamente dos padrões que definem o “cinemão”. Sem se distanciar desses padrões, nem satirizá-los cinicamente (pelo menos, não apenas isso). Tim Burton faz, em primeiro lugar e acima de tudo, perfeitas obras de entretenimento, elevando-as ao grau máximo do seu potencial. Em segundo lugar (nas camadas mais profundas que toda obra de arte deve ter), o cineasta coloca e discute suas questões mais profundas, para serem apreciadas pelos espectadores mais “adultos”.

Entretanto, os filmes de Burton são tão bem equilibrados em seus propósitos e na sua estética, que talvez nem convenha falar em sobreposição de “camadas”. É tudo simultâneo, tudo interligado em primeiro plano. É claro que, dependendo de com que olhos se assiste às fitas, alguns aspectos saltarão mais do que outros; mas os olhares bem balanceados perceberão a incrível polivalência dos filmes do diretor de Batman, O Retorno (1992), e como ela é trabalhada por todos os lados sem deixar nada para trás. E não devemos nos esquecer jamais de que a primeira grande e eficaz aproximação entre o cinematógrafo e a arte do espetáculo pertence ao prestidigitador (ilusionista) Méliès. O francês foi o primeiro a entender plenamente o potencial mítico do Cinema, como veículo dos sonhos, das fantasias, das alegrias, esperanças, dores e sofrimentos humanos. Tudo isto e muito mais é mostrado com todo o poder da clareza e da realidade trazidas pelo cinematógrafo – e transformadas com todo o engenho do mágico cineasta. E tudo isto é exatamente o que reencontramos na obra de Tim Burton.

Ele se aproveita de toda a (hoje avançadíssima) máquina da indústria cinematográfica e de todos os elementos mais tradicionais da Sétima Arte (sem deixar nenhum de lado, o que está dentro da qualidade polivalente de que falei no parágrafo anterior) na construção engenhosa do seu espetáculo epifânico. Engenho e epifania: duas palavras que remetem a campos completamente opostos (o humano e o divino), mas que se encontram perfeitamente unificadas no cinema de realizadores que assumem para si mesmos a tarefa de Prometeu. Eis o mito que literalmente anima o cinema, de Méliès a Burton. Em Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (“Sweeney Todd – The Demon Barber of Fleet Street”, EUA / Inglaterra, 2007), todos os aspectos do audiovisual são pensados e trabalhados com incrível esmero: a direção de arte (que ganhou um Oscar), os figurinos, os atores (com destaque para Johnny Depp, Helena Bonhan-Carter, Alan Rickman e Sacha Baron Cohen), a fotografia, a montagem, a trilha sonora e os efeitos especiais computadorizados (na abertura e numa estonteante e impossível panorâmica).

O espetáculo é o de um delicioso conto de fadas gótico (lembremos que Tim Burton é, atualmente, o maior herdeiro da Arte Romântica no Cinema): a história de Benjamin Barker (Johnny Depp), um pacato barbeiro londrino que é preso, julgado e sentenciado injustamente ao exílio por um juiz sem escrúpulos (Alan Rickman) que está interessado em sua mulher. Quinze anos depois, ele retorna para se vingar, disfarçado sob a alcunha de Sweeney Todd, também barbeiro. Até conseguir pegar o juiz, Todd “treinará” a sua vingança em (quase – este detalhe é importante, veja o filme com atenção, pois não vou fazer “spoiler” aqui) todas as pessoas que sentarem em sua cadeira de barbearia, com a cumplicidade da miserável Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter), que usará a carne dos mortos para rechear as tortas que ela vende em seu “bistrô”. E toma-se gargantas cortadas à navalha (motivo que ecoa bastante também em Os Senhores do Crime, de David Cronenberg), em banhos e esguichos de sangue literalmente espetaculares. Pois todo este sangue está mais para um motivo literário-plástico do que para a coisa de fato. É impossível não lembrar aqui a famosíssima frase de Godard: “Não é sangue, é vermelho!”

De fato, é vermelho. E muito vermelho. A cor, a textura e a densidade do sangue em Sweeney Todd são propositalmente inverossímeis. Assim, o filme não é violento. É uma fábula, um “causo” que se conta. Violentos são os filmes de Quentin Tarantino, mal-disfarçados de fantasia. Este filme de Tim Burton é teatro, e teatro do mais puro: o roteiro é a adaptação de um musical da Broadway, com partitura assinada por Stephen Sondheim; a história original do barbeiro demoníaco é uma lenda urbana (com várias versões) da Inglaterra do século XIX, que pode ou não ter alguma base real (Sweeney Todd é um dos primeiros “serial killers” a aparecerem na cultura moderna). O vermelho vivo do sangue que domina este filme é o único elemento “real” que contrasta com o cinza, com o escuro sombrio e nevoento da Londres “Gotham City” de Burton. No reino do imaginário, temos as cores claras e os ambientes ensolarados do passado feliz de Benjamin Barker e dos sonhos esperançosos de Mrs. Lovett. Mas o bem final aqui jamais se concretizará; a maldição é irreversível e irremediável, ao contrário do que se vê em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (“Sleepy Hollow”, 1999).

Agora, o que há de ser mais maravilhoso (literalmente) neste filme é o fato de ser um musical (!). Não por ser um musical que se oponha aos musicais tradicionais do cinema (já há diversos filmes que fazem isso, que destroem ou desconstroem o gênero, basta lembrar Dançando no Escuro, do famigerado Lars Von Trier); mas por ser um musical diferente, sem deixar de ser musical, de ter a alma musical e de concordar com tudo o que há a respeito de musical até o fundo... Um musical negativo (mas não negador), mas mesmo assim um musical; um musical gótico, ou “punk rock”, como o definiu Johnny Depp. De qualquer forma, está nos antípodas da felicidade, da luz e da deliciosa simplicidade do cinema musical clássico norte-americano (Gene Kelly, Fred Astaire). É muito interessante opor as cores vivas e chapadas do technicolor daqueles filmes aos tons praticamente expressionistas de Sweeney Todd (aliás, a direção de arte neste filme é quase tão delirante quanto O Gabinete do Dr. Caligari); ou ligar aquelas cores ao vermelho-tinta que é a única cor de verdade aqui. Mas o toque final da sutileza de Burton é o fato de ser um filme quase que inteiramente cantado (neste caso, ele estaria mais para uma espécie de Os Guarda-Chuvas do Amor gótico, em referência à clássica película de Jacques Demy), no qual – não obstante, o que mais se vê em segundo lugar são gargantas sendo cortadas e suas vítimas sufocando com aqueles ruídos agonizantes (principalmente para o espectador).

Epiphany

I had him!
His throat was there beneath my hand.
No, I had him!
His throat was there and now he'll never come again.
Mrs. Lovett: Easy now, hush love hush
I keep telling you, Whats your rush?
Todd: When? Why did I wait?
You told me to wait -
Now he'll never come again.
There's a hole in the world like a great black pit
And it's filled with people who are filled with shit
And the vermin of the world inhabit it.
But not for long...

They all deserve to die.
Tell you why, Mrs. Lovett, tell you why.
Because in all of the whole human race
Mrs. Lovett, there are two kinds of men and only two
There's the one staying put in his proper place
And the one with his foot in the other one's face
Look at me, Mrs Lovett, look at you.

No, we all deserve to die
Tell you why, Mrs. Lovett, tell you why.
Because the lives of the wicked should be made brief
For the rest of us death will be a relief
We all deserve to die.

And I'll never see Johanna
No I'll never hug my girl to me - finished!
Alright! You sir, you sir, how about a shave?
Come and visit your good friend Sweeney.
You sir, too sir? Welcome to the grave.

I will have vengenance.
I will have salvation.
Who sir, you sir?
No ones in the chair, Come on! Come on!
Sweeney's. waiting. I want you bleeders.
You sir! Anybody!
Gentlemen now don't be shy!

Not one man, no, nor ten men.
Nor a hundred can assuage me.
I will have you!
And I will get him back even as he gloats
In the meantime I'll practice on less honorable throats.
And my Lucy lies in ashes
And I'll never see my girl again.

But the work waits!
I'm alive at last!
And I'm full of joy!