sábado, maio 19, 2012

Shame



Vergonha e Castigo

Contrariando um pouco certos lugares-comuns, é preciso dizer que Shame (Reino Unido, 2011, direção: Steve McQueen) não é, exatamente e tão somente, uma história sobre compulsão sexual. Pelo menos, não é interessante de ser vista apenas como tal, sob pena de se ativar no púlbico uma outra, e igualmente perigosa, compulsão: a sanha diagnóstica vulgar, fruto de um determinado pensamento higienista que se compraz em patologizar todas as questões mais delicadas da vida subjetiva, para assim dormirem melhor as consciências remediadas. O cinema não está na alçada de atos médicos.

É sabido que a identidade social do anormal é uma construção histórica, que vem se mantendo no transcurso da civilização à medida em que o meio identifica indivíduos que não compartilham de certas características encontradas na maior parte das pessoas, características essas que definiriam o “normal”. O comum torna-se norma. Não é para se questionarem, evidentemente, casos óbvios de saúde (pública). Mas o fato é que, por critérios dos mais variados, as peculiaridades de alguns indivíduos foram, ao longo dos séculos, muito sumariamente categorizadas como quadros patológicos, cujo paradigma mais usado é o da doença.

Assim, torna-se muito fácil ouvirmos, no burburinho da saída de uma sessão de Shame, comentários psiquiátricos de porta de boteco que sempre estão na ponta da língua, do tipo: “nossa, é doença isso!”; “esse cara (o protagonista) passou dos limites!”; dentre outros. Uma personagem como Brandon Sullivan (Michael Fassbender) pode até se encaixar um quadro médico, completamente entregue que está ao moto perpétuo de um cotidiano regado a masturbações, sexo com prostitutas, pornografia online, visitas escusas a boates gays, etc. Mas o mais importante aqui é o público (e o crítico) observarem duas coisas:

1. trata-se de uma história de ficção, ou seja, há limites a serem observados na hora de se deitarem personagens fictícias no divã; 2. a narrativa construída por Steve McQueen (diretor e co-roteirista) não enquadra sumariamente a situação de Brandon Sullivan como um mero caso de “doença”, da forma sentenciosa como faziam os romancistas do Naturalismo (século XIX), ou como fazem alguns cineastas até hoje. Uma crise existencial, uma inquietação ou trauma, mesmo o vício sexual (se colocado em relação a essas vivências mais subjetivas), dizem mais respeito ao tom do filme e à construção do seu protagonista – que é alçado aqui a uma grandeza mais poética / lírica.

Por isso, a atitude de condenar muito rapidamente Brandon Sullivan como um anormal, como um “doente” (ainda que com suposta compaixão), não passaria de uma atualização do velho moralismo que o desqualificaria como um “pervertido”. A tara higienista de hoje não difere muito, em espírito, da mentalidade das épocas em que patologias eram entendidas como possessões demoníacas. Contudo, não estamos dizendo isso para que se defenda uma postura condescendente em relação à personagem, tampouco para negarmos a existência do vício em sexo (medo que o diretor tem em relação à sociedade norte-americana, dizendo em entrevista que, se tivesse feito um filme sobre álcool ou drogas, seria mais aceito).

O importante aqui é rasparmos as camadas mais superficiais da experiência trazida por um filme e observarmos a figura de Brandon Sullivan como possível alegoria para as armadilhas e abismos da condição humana, na fenomenologia do eu, do ser / estar no mundo em relação ao outro, com todas as dificuldades envolvidas nessa interação (dentre as quais pode-se incluir o vício sexual). Acreditamos que, no fundo, seja essa a proposta do filme: vivenciarmos uma (complicada) alteridade, uma vida alheia que, não obstante, é a nossa também. E mais nossa do que gostaríamos de acreditar. Como já dizia o filósofo: “nada do que é humano me é alheio”.

O artista visual Steve McQueen (prestigiado no circuito das exposições e galerias) é de grande sensibilidade no observar as suas difíceis personagens e contar os seus indigestos dramas, como já foi bem demonstrado no premiado Hunger (2008, sua estreia em longa-metragens), sobre a greve de fome realizada por prisioneiros políticos irlandeses no início dos anos 1980. O caso de Brandon Sullivan é que este não parece possuir tanto uma compulsão por sexo quanto parece estar mais para um sujeito “perdido”. O próprio McQueen confessa ao “The Guardian”: “Brandon in Shame is my response to being lost – I've not been there in the sense of sexual addiction, but I've been lost.(Brandon, em Shame, é a minha resposta ao estar perdido – eu não tive vício por sexo, mas já estive perdido).

Um indivíduo perdido, que reconhece estar perdido, mas não consegue fazer nada a respeito. Repete, irremediavelmente, os mesmos atos vergonhosos, numa dinâmica mental de crime e culpa, enquanto sua vida sócio-emocional permanece estagnada em isolamento, em solidão, ou mesmo cada vez mais decadente: nisto se vê o elemento de tensão e desequilíbrio trazido pela irmã necessitada de Brandon (Carey Mulligan), a qual ele negligencia e maltrata sistematicamente, pois ela demanda que ele saia um pouco de seu submundo e se dedique a uma relação de fato humana, ao que ele não é capaz de corresponder – assim como não corresponde à colega de trabalho que se interessa sexualmente e de modo genuíno por ele.

Literal e figurativamente impotente, o personagem magnificamente interpretado por Fassbender vai, assim, afundando num movimento em espiral, dentro de um abismo-redemoinho de abjeção e ignomínia. Dessa forma, os movimentos sinuosos e obscuros da alma de Brandon Sullivan interessam, aqui, muito mais do que a dinâmica simples do vai-e-vem da compulsão. Um bom filme exclusivamente sobre o vício, que citemos apenas para que se ilustrem bem as diferenças, é o clássico Os Viciados (“The Panic in Needle Park”, 1971, de Jerry Schatzberg): lá se veem, nas grandiosas atuações de Al Pacino e Kitty Winn, os efeitos devastadores de um comportamento aditivo, razão única da desgraça das personagens.

Quanto a Shame, este possui uma dimensão mais dostoievskiana: Brandon Sullivan, em sua alma atormentada, é uma variação do homem do subsolo, que habita – em outras e diversas variantes – as narrativas do russo, como “Crime e Castigo” (1866), “O Duplo” (1846) e, principalmente, “Memórias do Subsolo” (1864). Sullivan não é misantropo como os outros, não odeia a sociedade que o cerca. Mas odeia a si mesmo. Retorce-se de culpa ao mesmo tempo que se apraz em chafurdar na própria lama, sem vislumbrar saída para tal círculo (vicioso?). O longo e desesperado berro que ele dá, caído de joelhos num píer de Nova York, é a sua fala mais eloquente.

Com tudo isso, parece mais pertinente o diagnóstico de que a compulsão sexual de Brandon não é tanto a causa de sua miséria quanto a sua consequência. É o caso de detectar a atividade sísmica tão intensa que há no fundo do seu ser (um personagem “perdido”), que uma vez amplificada à superfície, causa tanta destruição. Um espírito perturbado, que vaga fantasmagoricamente pela vida, assombrado pelo mundo em si, sem lograr uma relação minimamente estável e razoável com outro ser humano, é tema comum aos filmes de Bergman, de Antonioni. Sem que estes, naturalmente, reduzam ao “vício” tais inquietações. Mas Steve McQueen também não o faz. Que se calibrem, então, os instrumentos de análise do público (e do crítico).

segunda-feira, março 26, 2012

Pina


No final de Asas do Desejo (1987), lemos uma dedicatória de Wim Wenders a todos os “ex-anjos”, especialmente três: Andrei (Tarkovski), Yasujiro (Ozu) e François (Truffaut). Mas o que é que faz com que esses três cineastas clássicos sejam considerados “former angels”? Neste ponto, o espectador já deverá ter prestado bastante atenção à história de Damiel, que troca a invisibilidade e a onisciência da condição celestial, serena mas distante, pela presença carnal, pela participação afetiva na miséria, na dúvida e no amor humanos. Damiel conquista uma história. A sua própria história. Essa volúpia do viver é o que caracteriza aqueles para os quais o humano é uma escolha.

Assim, existe uma sensibilidade especial em relação à vida, ao mundo e ao ser, uma sensibilidade que se debruça com carinho e acolhimento sobre as paixões e experiências que fazem com que nossa baixa situação, de resto frágil e muito breve, seja invejada pelos próprios imortais. E o artista, este será um anjo decaído e alçado à glória agridoce da existência. Ao coro dos três já enumerados, podemos enfileirar também – além do próprio Wenders, é claro –, o igualmente clássico Jacques Tati e a recente Claire Denis (que começou a carreira como assistente do diretor alemão), só para ficarmos dentre os cineastas. Mas, naturalmente, urge que nos lembremos de Pina Bausch, bailarina e coreógrafa, falecida subitamente em 2009.

Pina (“Pina”, Alemanha / França / Reino Unido, 2011) mal se pode chamar de documentário. Seria uma profunda grosseria. Este poema audiovisual, musical, performático, em três dimensões, será antes uma elegia à revolucionária artista alemã, uma das maiores do século XX: pioneira na divulgação da dança contemporânea e no diálogo entre dança e teatro, que hoje influencia um sem-número de coreógrafos, mas que, em suas primeiras experimentações, recebeu bem pouca atenção – como qualquer arte de vanguarda. Pina Bausch também é mestra em produzir números e espetáculos nascidos da subjetividade, expressividade e vivências dos próprios bailarinos de sua companhia, a Tanztheater Wuppertal Pina Bausch.

Wim Wenders é guardião zeloso da tradição do Romantismo germânico e seus intensos (anti-) heróis, assim como Werner Herzog – embora menos trágico do que este. Ouvimos no trabalho de Pina Bausch e de seus bailarinos o eco do famoso verso do poeta Alfred de Musset (1810-1857), no poema Impromptu, em resposta à pergunta sobre o que é a poesia: “écouter dans son coeur l’écho de son génie” (escutar no seu coração o eco do seu gênio – tradução livre). A imagem profundamente romântica, e nietzcheana, do sujeito frente ao sublime aterrador e atraente, a um só tempo, é uma das mais fortes de Pina: o bailarino dançando à beira do abismo.   

Quanto à experiência do “primeiro filme de arte em 3D”, a primeira peculiaridade que se faz notar é a seguinte: André Bazin define a imagem do quadro cinematográfico como centrífuga, isto é, a câmera promove um recorte de uma realidade que transborda para muito além das margens da tela; opondo-se, dessa maneira, ao teatro, que é centrípeto, isto é, tudo o que acontece de significativo toma lugar dentro dos limites do palco, como se nada mais existisse fora deste. Muito bem. Pina nos oferece uma experiência mais teatral do que cinematográfica, no sentido em que o 3D oferece corpo e profundidade aos bailarinos atuando no cenário preparado de um palco.

O ponto de vista do espectador muda em alguns momentos: Wim Wenders também produz alguns planos mais aproximados, com a câmera “em cima” do palco; além destes, há as cenas externas, com números de dança executados em diferentes espaços, ao ar livre (pequena curiosidade: as coreografias foram definidas pelos bailarinos, e os espaços, escolhidos pelo diretor). Mas o que chama a atenção, mesmo assim, é a câmera colocada no fundo da plateia, em que vemos até mesmo as cabeças das pessoas sentadas nas primeiras fileiras e, à frente destas, um palco em perfeita profundidade. Pina é um simulador teatral.

Agora, se juntarmos a maravilha do espetáculo do teatro-dança de Pina Bausch com a maravilha do cinema, particularmente a nova tecnologia em 3D, teremos um entusiasmante e assombroso resgate das primitivas maravilhas daquelas primeiras engenhocas que tentavam realizar o prodígio das imagens em movimento. A grande contribuição de Wim Wenders e o “primeiro” filme “de autor” em 3D será a de nos fazer lembrar do encanto ingênuo de coisas como a Roda de Faraday (1830), o Zootrópio (1834), o Praxinoscópio (1877), dentre outras, com suas bailarinas perpetuamente rodopiantes. Um cinema-brinquedo. O futuro é a atualização do passado.

domingo, novembro 06, 2011

Desenredos - Narradores de Javé


Fiquei um tempo sem postar. São muitas as correrias desta vida. Mas em outubro saiu o número novo da DESENREDOS. Minha contribuição se deu com um artigo sobre o filme Narradores de Javé (Brasil, 2003, de Eliane Caffé). Visitem. Leiam.

http://www.desenredos.com.br/artigo_9.html