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domingo, setembro 04, 2011
domingo, agosto 28, 2011
Prisão de Cristal
O mundo do diretor espanhol Agustí Villaronga é muito perigoso para as crianças (e adolescentes), definitivamente. Seus filmes compõem uma galeria onde se exibem, semi-explicitamente, as formas mais variadas e perturbadoras de abuso infantil: violência física (surras, torturas, assassinatos a sangue frio), violência psicológica (as mentiras que os adultos contam; se, para Truffaut, o universo adulto vislumbrado pelos olhos dos infantes era o da impunidade – a gente “grande” pode fazer o que lhe der na veneta –, para Villaronga, os pais, professores e demais autoridades só sabem mentir), violência sexual (o semi-explítico a que me referi se constitui de sugestões e elipses bem calculadas; não obstante, todo o sangue e lágrimas que banham as histórias são difíceis de esquecer).
Não há pureza em longa-metragens como o mais recente e bastante premiado Pão Negro (“Pa Negre”: Espanha / França, 2010), grande vencedor dos últimos Goyas (o “Oscar” do cinema espanhol), sendo a primeira produção falada em língua catalã a receber o prêmio de melhor filme; ou O Mar (“El Mar”: Espanha, 2000), onde se testemunha crianças matando crianças – e não com os tiros de chantily de Bugsy Malone: Quando As Metralhadoras Cospem, de Alan Parker (1976). E a inocência que normalmente se atribuiria à infância esvai-se rapidamente nos choques com o Mundo, como a pequena vida dos animaizinhos igualmente maltratados: um gato em O Mar, passarinhos em Pão Negro.
Uma exceção de grau talvez se possa fazer a Moon Child (“El Niño de la Luna”: Espanha, 1989), segundo filme de Villaronga, o único com final “feliz”. Enfim, os pequenos do cineasta são sistematicamente marcados a ferro e a fogo pela guerra (a II Guerra Mundial); pelo totalitarismo (a ditadura de Franco); pela doença (o diretor tem predileção pela tuberculose, o “mal do século” dos poetas do XIX: a lenta degenerescência que provoca nos corpos, de faces macilentas e “podres por dentro”, como bem diz um menino em Pão Negro, assim como a morte apoteótica em explosões de sangue, fazem com que a clássica tísica funcione como figura contundente da poesia grotesca de Villaronga, o qual parece evocar as atmosferas sórdidas dos quadros romântico-barrocos de Francisco Goya);
e, “last but not least”, essas crianças são marcadas pelas mutilações (uma mão que se perde, a castração, um pulmão de ferro, mesmo uma tatuagem que se deixa talhar com sutil masoquismo). Nada se poupa, nada se protege, nada se salva – falamos até agora de corpos, mas sobretudo as almas se perdem: a linha entre inocência e culpa mal pode ser divisada na maioria das personagens aqui, as quais transitam de uma condição a outra, se não com desenvoltura, certamente com frequência desconcertante. É bem outro o estatuto da criança e do adolescente na Espanha fascista do cineasta. Villaronga flerta um tanto com o fantástico: reconhecemos algumas linhas expressionistas nos cenários internos de Pão Negro, além da presença do “fantasma” que habita a floresta e ataca os viajantes; Moon Child é praticamente um conto-de-fadas (macabro): mistura de Harry Potter e O Pianista (2002, Roman Polanski).
Neste ponto, poderíamos aproximá-lo da fábula realista de Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno (2006); mas o sadismo aqui vai além. E infinitamente além, nem se precisa dizer, do universo infantil de Spielberg: só para brincar, vamos imaginar Super 8 dirigido por Villaronga... Mas quero dar uma pouco mais de atenção ao filme de estreia do diretor, o único lançado em DVD no Brasil, em janeiro deste ano, muito discretamente: Prisão de Cristal (“Tras el Cristal”: Espanha, 1987). Trata-se da história de um médico nazista, chamado simplesmente de Klaus, que conduzia experiências (inclusive as pedófilas) com meninos, durante a guerra. O filme abre com fotografias (reais) de crianças, vivas ou mortas, nos campos de concentração; além de mostrar o desenho, feito por uma delas, de pessoas nos “chuveiros” (câmaras de gás).
Essa simples folha de papel, com o traçado vacilante feito por uma mão pequena, causa ao espectador mais comoção do que as fotos ou as cenas violentíssimas que o filme mostrará logo adiante. Pois o que está em jogo aqui é o choque entre a pureza e o sutil da imaginação pictórica de um típico desenho de criança, e a realidade torpe que este evoca. Isso assusta mais do que qualquer representação infantil de fantasmas ou monstros que costumam ser exibidas nos filmes de terror. Com a queda do III Reich, Klaus fugirá, junto com a esposa e a filha, para a Espanha de Franco – e lá será bem acolhido. No entanto, o médico dará continuidade ao seu “trabalho”, clandestinamente, até o momento em que, corroído por remorsos, pulará do alto de um prédio (ou será jogado, persiste a ambiguidade).
Paralisado do pescoço para baixo, Klaus viverá e respirará o resto dos seus dias dentro de um “pulmão de ferro” (iron lung), uma estufa-caixão pressurizado que só deixa a cabeça do paciente de fora. O ex-nazista torna-se mais cadáver do que ser vivo, mais máquina do que homem: tem grande força simbólica a cena em que sua esposa tropeça no fio, desligando da tomada a pesada engenhoca e fazendo Klaus se asfixiar de imediato, enquanto ela demora a religar o aparelho, contemplando com assombro e fascínio a agonia do marido. A mulher contrata, então, um jovem enfermeiro, Ângelo, que aparece misteriosamente por ali. Porém, o rapaz se revela uma antiga vítima de Klaus. É o início de um jogo muito ambíguo de sedução e tortura, que culminará na transformação do “pulmão de ferro” numa espécie de altar para uma missa negra, ao mesmo tempo orgástica e epifânica – e, sobretudo, sacrificial. É o último plano do filme.
Prisão de Cristal tornou-se cult logo em seu lançamento, e também despertou muita controvérsia. É um daqueles filmes de que muito se falava, mas pouco se via, tanto por causa das censuras que se sucederam (o release do DVD ostenta com orgulho que o longa fora banido da Austrália). Parece ser um caso parecido com o que se viu, nestes últimos meses, em relação àquele A Serbian Film (que eu ainda não vi). De qualquer maneira, a estreia de Villaronga ainda é o seu melhor e mais equilibrado filme – embora a concorrência de Pão Negro seja surpreendente e encorajadora. Mas o melhor argumento em defesa de Prisão de Cristal, assim como das outras obras do diretor, será que o seu discurso não é sádico. Há muito sofrimento infligido, o que se mostra ora implícita, ora explicitamente.
Mas não detectamos a mesma volúpia em filmar a violência e a morte que se vê em Lars Von Trier, por exemplo (Anticristo – 2009), ou em Gaspar Noé (Irreversível – 2002). Para uma apreciação realmente cinematográfica, isso faz toda a diferença na hora de se julgar a legitimidade de uma “censura”. Fico curioso para saber em que lado se enquadra A Serbian Film, antes de emitir qualquer opinião sobre as proibições que vem provocando – opinião que alguns dão, às vezes, muito apressadamente. Agustí Villaronga não é mais “sádico” do que Tinto Brass é “pornográfico”. O espanhol utiliza-se dos códigos da violência e do horror da mesma maneira que o mestre italiano se dispõe da sexualidade e do erotismo.
Pode-se aplicar a Prisão de Cristal o que Brass disse a respeito do seu Calígula (1979), que lhe tiraram das mãos na sala de montagem: “Eu quis fazer um filme sobre a orgia do poder, e não sobre o poder da orgia”. As películas de Villaronga são todas variações desse tema da “orgia do poder”. Pois o gozo e a morte podem ser dois lados de uma mesma moeda. Sem querer entrar numa psicanálise de porta de botequim, termino com uma citação de André Bazin:
“Lembro-me de ter escrito certa vez, a propósito de uma célebre sequência de cine-jornal em que se viam ‘espiões comunistas’ sendo executados no meio da rua, em Xangai, por oficiais de Chang Kai-Chek, lembro-me, digo, de ter observado que a obscenidade da imagem era da mesma ordem que a de uma fita pornográfica. Uma pornografia ontológica. A morte é aqui o equivalente negativo do gozo sexual, que não é por menos qualificado de pequena morte (petite morte).” À Margem de “O Erotismo no Cinema”, publicado originalmente nos Cahiers du Cinéma em abril de 1957 e reproduzido na antologia O Cinema: ensaios (ed. Brasiliense, 1991)
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sexta-feira, agosto 19, 2011
Super 8
Super 8 (EUA, 2011) deixa um retrogosto incômodo. É claro que não deixa de ser uma delícia degustar sabores em cujo preparo cuidadoso reconhecemos a força de uma tradição: J. J. Abrams – diretor deste filme e produtor de Cloverfield – Monstro (2008, Matt Reeves) – revela-se discípulo aplicado do método dos primeiros blockbusters, que encontram em Steven Spielberg um dos seus principais mestres. Este, por sua vez (tanto como produtor de Super 8, quanto como diretor dos seus próprios longas), revela-se guardião da chama da narratividade clássica de Hollywood (que remonta a Griffith, o qual simplesmente inventou, em boa parte, o que chamamos hoje por “cinema”).
Veja-se que estamos trabalhando aqui num registro muito longe do exibicionismo epiléptico-tecnológico de um Michael Bay, por exemplo. Vislumbramos em Splieberg fantasmas dos velhos filmes de gênero (anos 30 e 40), o que não se repara nas produções efêmeras do iletrado diretor da franquia Transformers, cuja densidade, tanto temática quanto formal (pensando em estilos que se desenvolvem e dialogam uns com os outros dentro da história de uma arte-linguagem), é inversamente proporcional à bilheteria que arrecadam. Mas J. J. Abrams é um bom herdeiro do patrimônio de um cinema que é ilusão sim, mas sem falsidade – o paradoxo é apenas aparente.
Quero dizer que a tão falada “infantilização” que a geração de Spielberg, Lucas e Dante trouxe para o cinema entre os anos 70 e 80 parece coisa adulta e perfeitamente autoral perto dos seus equivalentes de hoje. Desse modo, Super 8 é um filme quase digno de passar em “festivais” e certamente passível de receber reflexões críticas enaltecedoras. Quanto aos “blockbusters” da turma de Bay (dentre a qual se contam Roland Emmerich, Zack Snyder e o mais infame confrade do baixo clero: Paul W. S. Anderson), o resenhista de boa vontade – por mais pia que esta seja – encontrará pouco terreno para explorar.
Mas não é somente a memória do cinema que nos faz apreciar com gosto – e dar credibilidade, principalmente – a Super 8. A memória afetiva do espectador é acionada como poucas vezes um produto “vintage” consegue fazer – e esta também se encontra ligada ao universo dos filmes. Um cinema dedicado à Mnemosine (personificação divina da memória para os antigos gregos), essa parece ser a orientação expressiva de Abrams e Spielberg. Em primeiro lugar, realiza-se o ato de lembrar um modelo romântico de produção de filmes que está na raiz da formação de J. J. Abrams e de outros cineastas que, adultos, viriam a fazer fama em Hollywood (Peter Jackson é outro).
É engraçado comparar o entusiasmo e o espírito inventivo deles (falando agora dos jovens personagens de Super 8, envolvidos na produção de seu filme caseiro) com a geração atual do Youtube: os equipamentos e meios podem ter mudado consideravelmente, mas a paixão – nos melhores casos – continua a mesma. Desse modo, Super 8 também é uma declaração de amor a um cinema feito “na raça” por essas crianças, uma forma ingênua mas muito espirituosa de cinema-brinquedo – não menos “de verdade” do que o cinema pensado e praticado por cinéfilos apaixonados de idades mais avançadas. É um filme que dá vontade de fazer filmes.
Pequeno “spoiler”: esse lirismo encontra sua maior expressividade após o final da exibição, em que vemos, junto da rolagem dos créditos finais, o “verdadeiro filme”, como se tudo o que tivéssemos acabado de presenciar não passasse de uma espécie de “making of”. É um momento muito bonito. Em segundo lugar (como parte integrante das sociedades de consumo), há a memória saudosista de tecnologias “primitivas”, no caso, analógicas: walkman, câmeras, rolos de película (que precisavam ser revelados, o que levava tempo; o próprio Abrams declara, em entrevista, sua saudade da época em que não se via “na hora” o resultado da filmagem).
Em terceiro lugar, Super 8 é carregado da memória cinéfila das aventuras de pré-adolescentes que funcionam como verdadeiros ritos de passagem, lembrança essa que anima igualmente o espírito de J. J. Abrams e o dos espectadores (pelo menos, os de certa faixa etária). É fácil lembrar-se de ET, O Extraterrestre (1982, do próprio Spielberg) e de Conta Comigo (“Stand By Me”, 1986, de Rob Reiner). Mas o predileto deste que lhes escreve é Viagem ao Mundo dos Sonhos (“Explorers”, 1985, de Joe Dante): a estimulante ligação entre o empreendedorismo criativo das crianças e os contatos imediatos de terceiro grau é algo que aproxima bastante os dois filmes.
Pensando mais uma vez no “cinema-brinquedo”, há algo de Super 8 que emula também o pouco visto Bugsy Malone – Quando As Metralhadoras Cospem (1976, de Alan Parker). Mas enfim, eu tinha dito no começo que o filme de Abrams e Spielberg deixa um retrogosto incômodo para o paladar visual do espectador. Essa sensação é justamente aquela de “já vi este filme antes”. Que seja uma homenagem (sobretudo à memória, como analisamos), tudo bem. Mas é triste pensar no que isto pode representar da – tão comentada – crise de criatividade em Hollywood.
Para quem primeiro se apaixonou pela sétima arte vendo as cinesséries Star Wars (1977-1983), Indiana Jones (1981-1989), De Volta para O Futuro (1985-1990) e Superman (1978-1987), e crescendo junto delas, é lamentável testemunhar que as últimas franquias que criaram novos paradigmas (ou trabalharam os velhos com sabedoria, em termos de roteiros e temáticas) foram Matrix (1999-2003, e ainda olhe lá) e O Senhor dos Anéis (2001-2003), os quais despertaram, logicamente, inúmeras “influências”, uma pior do que a outra. Já não se fazem mais “blockbusters” como antigamente; os trinta anos que nos separam da era gloriosa de Spielberg e Lucas estão pesando bastante.
E os prognósticos não são nada animadores: acabo de ver, no IMDB, que Ridley Scott está finalizando mais um filme da série Alien (!) e preparando outro Blade Runner (!). É vero que James Cameron, com o seu Avatar (2009), certamente deu um fôlego de novidade para a indústria; mas, até agora, é caso isolado (abstenho-me de comentar os fiascos ou golpes publicitários que são a maioria das produções atuais em “3D”). Não obstante, falemos de J. J. Abrams. Lost (2004-2010) é genial e revolucionária, mas em relação à serialização das narrativas na TV, (por exemplo, na releitura inovadora e subversiva que faz dos códigos e estruturas de “reality shows”).
Mas o que temos dele na tela grande, até agora? Missão Impossível III (2006, o próprio título já fala por si mesmo), Cloverfield – Monstro (2008, atualização interessante do velho Godzilla) e Star Trek (2009, atualização não tão interessante). Após a “homenagem” que é Super 8, aos clássicos spielberguianos e à era de nascimento dos “blockbusters”, qual será a sua próxima ideia? Outro tributo seguro ou modernização conservadora de velhos mitos (será ele um novo Tarantino, que agora está preparando um western)? Ou será que podemos esperar que J. J. Abrams faça pelo cinema o que já fez pela TV?
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