domingo, agosto 23, 2009

Inimigos Públicos


É um grande exagero comparar Michael Mann a Scorsese, Coppola e de Palma. Por enquanto. O espectador esclarecido deverá saber observar para além dos “hypes” que infestam o debate cotidiano na mídia. Os filmes de Mann com certeza têm visão de mundo, personalidade e estilo. Mas será que são tão densos quanto os grandes clássicos? É muito difícil fazer corpo com uma tradição. Será que a bagagem cinematográfica e o talento de Michael Mann já permitem que dispute uma vaga no panteão dos imortais?

Só podemos intuir. Acredito que Mann jamais se irmanará com os mestres supra-citados. Não obstante, se o cineasta continuar se esforçando, poderá conquistar a posição de, digamos, o “clássico dos nossos tempos”. Não é muito, mas já é alguma coisa. E, além do mais, quem foi que disse que todos os filmes precisam ser eternos? Inimigos Públicos (EUA, 2009) é um filme bastante agradável.

O rigor da mise en scène (a fotografia, a direção de arte, os figurinos), a pouca presença de música incidental (ah, o silêncio!) e a direção exata dos atores fazem com que o filme adquira o charme próprio daHollywood clássica. Porém, grandes inconsistências: Inimigos Públicos foi captado em Digital e acabou saindo com uma cara de DV muito além da conta. Alguém me diga o que é que o estilo “guerrilla movie” tem a ver com a época e o universo mostrados?

A impertinência estética, a incoerência entre a forma e o conteúdo é o único pecado imperdoável em qualquer forma de arte. Não é que Mann precisasse ter filmado em preto-e-branco e editado na moviola, mas existem alguns limites, não? Mas não quero ficar reclamando. Prefiro me concentrar no “clássico contemporâneo” de Miami Vice (2006). Cada um na sua praia. Clint Eastwood e, talvez, os irmãos Coen são os realizadores de hoje com mais potencial de ascender às esferas dos clássicos atemporais. Quanto a Mann, vamos ver o que ele ainda vai fazer.

domingo, agosto 09, 2009

A Garota Ideal


Aviso preliminar: o texto abaixo não contém muito do que se chama “spoilers”, mas o filme de que ele trata é daqueles em que o melhor é assistir sem que se possua qualquer informação a seu respeito, nem a mais breve sinopse. A surpresa aqui é tudo. Quem quiser aproveitar ao máximo a experiência, não leia esta postagem. Alugue o filme e assista-o imediatamente (não leia nem a contra-capa do DVD). Você não vai se arrepender.

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Este filme não é tão perturbador quanto a sua sinopse pode sugerir. Pode acreditar. E esta é a sua maior qualidade; não fosse assim, cairia numa velha armadilha que poderia fazer cócegas aos espíritos mais fleumáticos, mas não aos mais sublimes. Não há criatura a quem eu fale de A Garota Ideal (“Lars and The Real Girl”, EUA, 2007, dir.: Craig Gillespie) que não faça uma cara de: “Como assim?” com um misto de surpresa, repugnância, curiosidade e – por que não? – compaixão.

Indicado ao Oscar de melhor roteiro original em 2008 (perdeu para Juno), esta pequena fita conta a história de Lars, um jovem de bom coração mas com seríssimas dificuldades de se relacionar com as pessoas, principalmente com as mulheres. Apesar das diligentes tentativas do irmão, da cunhada e de uma colega de trabalho que está a fim dele, a timidez extrema de Lars faz com que permaneça um misantropo incorrigível.

Até que, um belo dia, ele aparece com Bianca: uma formidável figura de silicone comprada pela Internet com os seus, imaginamos, 1,65 de altura e uns 52 Kg; além de ser, é preciso lembrar, “anatomicamente correta” – ou seja, ela tem TUDO o que uma mulher tem, fisicamente falando. Este é o momento realmente perturbador do filme. Testemunhamos de queixo caído o início do “relacionamento” entre Lars e Bianca e as reações de toda a comunidade ao redor – o cenário é, logicamente, o de uma cidadezinha.

Antes que algum espectador se lembre do engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha – uma das maiores expressões que esta humanidade já foi capaz de produzir – no próprio filme vemos Lars lendo o clássico de Cervantes para embalar o sono de sua “garota”. Então, acontece o ponto de virada. Se o roteiro ficasse apenas no registro deste “bizarro” e de suas consequências mórbidas, a obra não seria melhor do que as fantasias perversas de uns “garotos enxaqueca” que há por aí.

É claro que a roteirista Nancy Oliver poderia ter enveredado por uma linha mais literária, à lá Dostoiévski, Kafka ou Borges. Mas este é, na verdade, um filme bem simples e sensível. Mas não se trata, ainda bem, de uma sensibilidade e otimismo bobos como os do Curioso Caso de Benjamin Button, por exemplo. A história de Lars tem muito mais densidade. A virada acontece quando Bianca começa a ganhar um estatuto de realidade para todas as pessoas ao redor de Lars.

Todos se compadecem dele e querem ajudá-lo. Assim, com a supervisão de uma psicóloga, a cidade inteira mergulha na fantasia dele. É bonito ver Bianca ganhar uma vida e personalidade próprias, independentes do seu “namorado”. Evidentemente, começarão aí os problemas do relacionamento: Lars fica com ciúmes, ele não gosta de disputar Bianca com todo mundo.

O filme mostra com incrível sabedoria todas as fases de um relacionamento, todos os seus aspectos, todas as neuroses, as pequenas e as grandes crises do cotidiano. E nós assistimos a toda essa evolução surpreendendo-nos de tudo isso não ser nada surpreendente, pois para todos os efeitos Bianca é REAL. Como diz Raul Seixas: “sonho que se sonha junto é realidade”. A Garota Ideal só faz por alargar o conceito de realismo fantástico.

Não contarei o final do romance entre Lars e Bianca. Saiba apenas que o filme, no seu conjunto, é belo, humano, revigorante e transformador. Terapêutico, talvez. Não há nada de doentio ou trágico na história de Lars. Trata-se de um processo de aprendizado e de cura. Uma verdadeira educação sentimental. É um daqueles filmes que nos ensinam a amar (de verdade a pessoas de verdade), a viver a vida de maneira poética.

terça-feira, julho 07, 2009

A Mulher Invisível


TRANSFORMA-SE o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento com idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples, busca a forma.

Luis Vaz de Camões

Não há melhor definição e resumo para A Mulher Invisível (Brasil, 2009, dir.: Cláudio Torres) do que o famoso soneto acima. O link camoniano já se percebe desde o trailer. Pequenos parêntesis: os brasileiros ainda têm muito a aprender na arte de fazer trailers de filmes, pois os nossos parecem os dos europeus – pior ainda, os dos asiáticos –, tenta-se espremer o filme inteiro em poucos – ou muitos – minutos, parece que tentando vendê-lo a qualquer custo; resultado: spoiling, spoiling, spoiling.

Agora, vamos ao que interessa. Os fãs das películas de Cláudio Assis, Heitor Dhalia e cia. não podem assistir à Mulher Invisível. De jeito nenhum. Afinal, este é um filme absoluta e descaradamente comercial, vendido, alienado, medíocre, popularesco, imitação submissa de Hollywood, padrão Globo de “qualidade”. Clichês, clichês, clichês. Eis algumas das avaliações dos críticos da Folha de S. Paulo, naquele quadro do Guia:

“nem Luana vale o sacrifício”; “uma boa idéia e um caminhão de clichês” (esse pelo menos admitiu a “idéia” do filme); “não é invisível, é não visível” (esse foi poético, deve ter estudado na faculdade o quadrado semiótico de Greimas). Tem uma que parece ser assepticamente neutra: “na nova onda da comédia popular brasileira”. E outra, que achei a mais equilibrada, embora mantendo mesmo assim o altivo distanciamento do crítico em relação às coisas do povão: “inocente e simpático, mas de final prolixo”.

Tem razão. Só que é mesmo difícil dar fecho à premissa e a todos os desdobramentos fantásticos de um filme assim. Muito bem, pessoal. Como é difícil ter alguns discernimentos básicos: 1. filme comercial mal feito é um negócio muito diferente de filme comercial bem feito; 2. quanto mais se desenvolver a indústria cinematográfica no Brasil, maiores probabilidades teremos de produzir uma (ou algumas) obras-primas a serem veneradas por toda a intelligentzia

ou alguém acha que haveria em nossa literatura um Machado de Assis se não tivesse aparecido antes um José de Alencar? Tomo a liberdade de reproduzir e comentar um trecho da entrevista de Júlio Bressane à Revista Época. O clássico cineasta experimental é autor do recente A Erva do Rato (cujo título, assim como o de O Cheiro do Ralo – até rimou! – e o do O Baixio das Bestas, mostra a quantas anda o nosso cinema-cabeça).

ÉPOCA – Tanto “Cleópatra” quanto “A Erva do Rato” foram exibidos em Veneza. Você acha que esse tipo de cinema mais autoral e mais difícil tem um público maior no exterior do que aqui?
BressaneEu acho que o filme autoral desapareceu. É um cinema que sumiu. Não se faz mais isso, esse cinema acabou. É agônico esse final. Alguns diretores de 70, 80 anos sabem fazer ainda, se equiparam, se aparelharam, se adestraram nessa coisa difícil que é a construção da imagem e da montagem do cinema. Mas esse tipo de filme não tem mais nem público para ver. É um processo imenso de mediocrização de tudo. Essa questão das artes foi colocada no campo do entretenimento, no sentido mais bruto e piegas dessa expressão americana, entertainment. Foi reduzida a isso. Esse cinema de arte e de experimento desapareceu.

Tudo bem que, sem as festas dionisíacas na Atenas do século V a.C., que foram promovidas como política populista por parte dos tiranos e graças às quais se instalaram os concursos de tragédias que fizeram surgir os nomes de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, jamais haveria... por exemplo, um Shakespeare, não? Ou que, sem os autos e farsas do populacho medieval não conheceríamos Gil Vicente ou Ariano Suassuna... Sem os vaudevilles, quem seriam Charles Chaplin, Buster Keaton, Jacques Tati?

E finalmente, sem os nickelodeons, circos e feiras “medíocres” da passagem do século XIX para o XX, esqueçam o Cinema todos os que hoje o adoram – inclusive aqueles que preferem o cinema dito “experimental”. Medíocre é a crença numa dicotomia tão simplista entre arte e entretenimento. Miopia, miopia, miopia. Bressane ainda diz que “o cinema é a mais ativa vacina contra a mediocridade” e que “o filme de público foi o que destruiu o cinema brasileiro”.

Os maiores cineastas brasileiros de todos os tempos ainda estão para surgir. Espero por eles como quem aguarda um messias (apesar de uma mentalidade messiânica em relação ao nosso cinema ser algo bem problemático). Os futuros gênios da Sétima Arte tupiniquim saberão incorporar, utilizar, equilibrar e discutir dialeticamente em sua arte as formas mais “medíocres”, venham elas de dentro ou de fora do Brasil. Equivalente ao que fizeram, na literatura, os supremos Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Quero ver!