domingo, julho 06, 2008

Filmes de Junho


Películas vistas ou revistas no pobre mês de junho (mais gordo do que maio, pelo menos):

Desejo e Reparação (“Atonement”, EUA, 2007)
É tão bom quanto a “literatura” de Khaled Hosseini ou a “música” de Maria Rita. Produto da indústria cultural para públicos “chiques”.

O Rei Leão (“The Lion King”, EUA, 1994)
Clássico absoluto da Disney. Transformou os desenhos animados em “blockbusters” dignos de concorrer com as maiores e mais caras produções de Hollywood. A trilha sonora ainda é a melhor, até hoje.

Shrek Terceiro (“Shrek The Third”, EUA, 2007)
Epígono de si mesmo. A insistência patética em cima de uma fórmula já suficientemente esgotada nos dois filmes anteriores. Desgaste total. Cansativo. Sem graça. Dá sono. Piada velha, já.

This is Spinal Tap (EUA, 1984)
Sátira genial. A inspiração de “fenômenos” como a banda Massacration. Por que é que tenho a impressão de que filmes assim só encontramos mesmo nos anos 80?

Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto (“Before The Devil Knows You’re Dead”, EUA, 2007)
Por que é que qualquer “peido” dos mestres tendem a ser muito mais agradáveis do que os melhores “perfumes” dos seus discípulos? A mais nova fita de Sidney Lumet não está à altura dos clássicos do diretor, mas ainda assim é muito melhor do que 70% da produção contemporânea.

Queimando Tudo (“Up in Smoke”, EUA, 1978)
Outra sátira genial. Cheech e Chong são o máximo. O cuidado na caracterização dos personagens e das situações é impressionante. Tem-se aqui aquele tipo de talento inimitável – ainda mais que o tema é “cabeludo” (a maconha). O Jay e o Silent Bob (dos filmes de Kevin Smith) são uma boa re-contextualização, mas, mesmo assim, sem a força dos pioneiros. Para se ver logo após se assistir a “Reefer Madness” (EUA, 1933).

O Monstro do Mar Revolto (“It Came From Beneath the Sea”, EUA, 1955)
Clássico do sci-fi B. O “Godzilla” norte-americano. Imagens antológicas. Efeitos especiais impressionantes (para a época). Produto da Guerra Fria. Dá para estabelecer um diálogo com “O Hospedeiro” (Coréia do Sul, 2006).

A Um Passo da Eternidade (“From Here to Eternity”, EUA, 1953)
Para que ver “Desejo e Reparação” se temos esta maravilha dos anos 50? O que é que “Atonement” tem a acrescentar à humanidade? O filme poderia desaparecer que não faria falta a ninguém. Que os clássicos sejam sempre vistos e revistos e vistos mais uma vez de novo.

O Incrível Hulk (“The Incredible Hulk”, EUA, 2008)
Muito bem feito. Particularmente interessante para os saudosos da série de TV e para quem não gostou do filme de Ang Lee. A Marvel ainda tem bastante lenha para queimar.

Fim dos Tempos (“The Happening”, EUA, 2008)
De boas intenções o inferno já está cheio...

Agente 86 (“Get Smart”, EUA, 2008)
Mais um ponto para Steve Carrell. Caso raro em que a releitura de um clássico não desanda para o desastre total.

WALL-E (EUA, 2008)
Mais do que surpreendente. A prova de que o bom cinema se faz com simplicidade. O cinema de verdade se constrói com roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora e direção, mais do que com quaisquer outras “técnicas”. A computação gráfica aqui, apesar de ter uma qualidade inacreditável, é o de menos. Em arte, técnica não é a mesma coisa que tecnologia.

sexta-feira, julho 04, 2008

Meu Nome Não É Johnny


“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos (...)” Marguerite Yourcenar

A epígrafe-mote do filme é bonita – ela aparecerá mais uma vez no final. Pena que não é usada para se construir, a partir daí, uma narrativa que trabalhe de maneira detalhada, profunda e complexa a psicologia do indivíduo, os atos, fatos, decisões, erros e remorsos que compõem a tragédia humana. Meu Nome Não É Johnny acaba passando como uma parábola das mais simples com uma mensagem moralizante ainda mais simples, ou melhor, simplista. Nada contra o sentido moral da experiência de João Guilherme Estrella, do modo como ele mesmo a viveu ou como nós a possamos testemunhar; não é necessário que se faça nenhuma glamourização do crime ou da figura mítica do criminoso rebelde, charmoso, bonitão e bem-nascido. Mas a maneira como a narrativa deste filme foi construída parece daqueles livros pseudo-romanescos de auto-ajuda evangélica, espírita, anti-drogas, anti-álcool, etc., publicados para o bem da moralização da nossa juventude.

Não sei se, na verdade, é o livro no qual se baseia o filme que é assim. De qualquer maneira, fica registrada a reclamação. O fato é que, justamente por ser uma daquelas vidas exemplares (no sentido de vidas que servem de modelo para se discutir coisas importantes e transmitir mensagens mais importantes ainda), a vida de João Estrella merece uma biografia cinematográfica – ou literária – mais à altura do drama, da tragédia, da arte; de uma elaboração artística, de uma estetização que não banalizasse a experiência humana em vista de um propósito didático moralizante dos mais redutores. Repito: não é que não deva haver moral, mas esta, justamente por ser uma dimensão importantíssima, deve receber um tratamento artístico mais elevado e mais livre, digamos assim. Ainda que a arte tenha moral, esta jamais deve carregar a obra artística nas costas de uma maneira tão explícita e simplista – conseqüentemente – reduzindo tristemente a maravilha complexa da experiência humana, ainda que trágica.

O que não se parece compreender é que o tratamento dramático, trágico e psicologicamente profundo, complexo, de uma narrativa assim é o que mais contribuiria – positivamente – para que o conteúdo moral fosse eficientemente veiculado, numa forma estética. Como maior exemplo de uma narrativa fílmica bem construída – no sentido em que estamos tratando – é a série O Poderoso Chefão, clássico de Coppola. Um filme como Cassino, de Scorsese, também vai na mesma linha. Não estou querendo dizer com isso que Mauro Lima devesse ter imitado o estilo desses dois diretores. A questão não está no estilo de direção, está na elaboração do roteiro. Meu Nome Não É Johnny não se decide entre ser o “Brazilian Gangster” (referência que fazemos aqui ao mais recente filme de Ridley Scott: o “American Gangster”) e uma versão um pouco mais elaborada do livro da Bruna Surfistinha misturado com qualquer historinha simploriamente edificante para acalmar os ânimos de pais zelosos.

O filme quer mostrar muita coisa importante em pouco tempo. É lógico que muitas delas acabam ficando na base do sumário, apenas o suficiente para que a “tese” seja demonstrável – neste caso, a tese positiva de que qualquer pessoa pode se recuperar e se regenerar, contrária obviamente à maioria das teses que assolam o cinema Naturalista do mundo cão brasileiro. Querer tratar de maneira adequada tanto da vida criminosa de João Estrella, quanto da sua vida carcerária e pós-carcerária (o lento processo de regeneração) demandaria um filme de pelo menos três horas (eis de novo os grandes modelos de Coppola e Scorsese). Agora, se o cinema comercial brasileiro ainda não está maduro o suficiente para produzir um longa tão volumoso e dispendioso, que se reduzam pelo menos as ambições, faça-se um recorte menor da vida do personagem para se colocar na tela.

Enfim, é um problema comum no nosso cinema este: dar um passo maior do que as próprias pernas. Não que se devam dar passos pequenos, mas a idéia é “malhar” as pernas para que possam dar passos e saltos cada vez maiores. Neste filme, é grotesco e chocante o desnível entre o começo e o final. O começo nos promete um Coppola ou Scorsese e o final nos entrega mais uma novela das 8. Apesar de tudo, a experiência de assisti-lo é agradável graças ao trabalho de Selton Mello, de alguns coadjuvantes (principalmente os policiais corruptos, que dão cenas bem boladas e engraçadas) e dos atores que compõem o elenco da prisão e do manicômio, dentre os quais se repete a presença de Flávio Bauraqui – de Quase Dois Irmãos. A trilha sonora, a direção de arte (na reconstituição de época), a fotografia e a montagem também chamam a atenção. Só o roteiro mesmo que estraga. Enfim, é um filme bastante profissional, mas para ser arte (mesmo que apenas arte “de gênero”) falta algo mais.

quarta-feira, julho 02, 2008

Conduta de Risco


Aqueles que se valem dos serviços de Michael Clayton acreditam que ele seja um “milagreiro”. Respeitáveis donas-de-casa, celebridades zelosas de suas imagens públicas, políticos que se pegam em “maus lençóis”, quem quer que tenha feito besteira – daquelas que não podem virar notícia – e que tenha um bom dinheiro a gastar, basta chamar o Sr. Clayton. Ele é o modelo do profissional eficiente, ou melhor, da própria eficiência em si, tal como ela é tão legitimada na sociedade da “qualidade total”. O problema é: será que o universo profissional está além de qualquer implicação ética ou moral? Em princípio não. Ou melhor, procura-se reduzir ao mínimo a pertinência dos efeitos morais de um trabalho profissional. Por mais que se fale em “responsabilidade social” das empresas, a ideologia dominante no mundo corporativo é aquela que diz respeito aos seus próprios interesses.

Mesmo assim, há trabalhos que são mais sujos do que outros. Michael Clayton, nesse sentido, é o “faxineiro” (ele mesmo se define como tal) que cuida dos casos mais cabeludos, daqueles que ninguém mais quer ou pode pegar. Por isso, ele possui uma ocupação essencial na firma de advocacia em que trabalha, mas não é sócio dela – isso seria um risco grande demais a se correr. Suas atribuições estão no limite da legalidade. Michael Clayton é o mal necessário, a amputação traumática que preservará o resto do corpo, o “agente secreto” sem carteira assinada, comprovante de pagamento ou seguro social, e que, se for capturado ou preso, estará por sua própria conta. Sua pessoa e suas atividades serão negadas pelos “contratantes”. Um James Bond do mundo corporativo. O charme de George Clooney contribui bem para essa imagem.

Apesar de tudo, Michael Clayton é um ser humano. É claro que ele não tem crise de consciência alguma em relação ao seu trabalho. Ele o abraça com a paixão desapaixonada do “homem-que-faz-o-que-é-preciso-ser-feito”. Mas possui um filho que reclama da falta de atenção do pai (como é praxe de acontecer com o perfeito profissional), um irmão policial que reclama da falta de atenção em relação à família, e outro irmão ao qual (esse sim) Michael dá uma atenção preocupada, mas mesmo assim, uma atenção “profissional”: ele se desdobre para levantar o dinheiro que pagará uma dívida do irmão “ovelha-negra” da família. Dívida que é também dele próprio: Michael Clayton é viciado em pôker. Enfim, assim a dimensão humana do personagem fica construída, com uma densidade considerável.

Apesar disso, Conduta de Risco não é um drama. É um “thriller”. E um suspense cujo tom e cuja linguagem adaptam-se muito bem ao universo retratado. O filme é exato, frio, contido, sempre zeloso da eficiência (estética, narrativa, dramática). Despojado de quaisquer elementos (sejam estilísticos, dramáticos ou narrativos) que não tenham uma ligação muito direta e profunda com a história e o efeito que ela procura provocar. E o que é melhor: é uma objetividade desinteressada. O filme trabalha com diversas questões sociais, algumas delas muito contemporâneas – como os crimes corporativos –, sem contar os limites éticos da cultura da profissionalização e da eficiência; mas sem adquirir ares alguns de filme “de tese”. Que cineastas brasileiros metidos a sociólogos aprendam. “Michael Clayton” é um filme de gênero, mas enriquecido de outras pertinências. Quem é que faz isso melhor do que os norte-americanos?

Alguém poderá objetar que o roteiro e a filmagem são muito esquematizados, calculados demais segundo as leis do gênero, sem dar abertura ao acaso e ao sem-sentido que existem na própria vida e no mundo como ele é. A fotografia é exata, a montagem é exata, e também são exatos os diálogos, a sucessão dos acontecimentos e o seu encaixe dramático-narrativo. Porém, neste caso, o “esquematismo” pode funcionar como uma função poética para expressar melhor o universo tematizado (talvez de um modo irônico até). A exatidão do filme aqui não é redutora. Pelo contrário, ela está a favor do conteúdo. Faz com que percebamos com maior gravidade a importância do que é mostrado, de uma maneira crítica, sem permitir que nossa atenção se desvie para uma catarse boba através de algum acento emocional relativo a um fato ou personagem.

O filme dá o seu recado e ponto. Nesse valor de exatidão, “Conduta de Risco” possui algumas cenas bem fortes e significativas. O homicídio de Arthur Edens (muito bem interpretado por tom Wilkinson, que concorreu a um Oscar) é mostrado com tal frieza e exatidão, que pensamos estar vendo médicos praticando uma “intervenção cirúrgica”. Aliás, os assassinos são profissionais quase inumanos, absolutamente serenos e racionais, mesmo quando as coisas saem dos trilhos. Outra cena de destaque (talvez a melhor, do ponto de vista cinematográfico) é a que mostra o depoimento de uma das vítimas da U-North (corporação criminosa), visto pelos advogados da companhia num pequeno aparelho de televisão. O depoimento da moça segue natural e tranqüilo, sem qualquer excitação emocional, quase que tímido.

Então, de repente, ouvimos (na mesma sala em que ocorre o depoimento) alguém gritar disparates, causando uma tremenda comoção em todos que estão ali. A câmera então (a que filma o depoimento) vira para o lado e pega o advogado Arthur Edens (que defendia a companhia) no meio de um “surto”, a tirar a roupa e gritar loucamente palavras de apoio à vítima. Da maneira como a vemos, parece uma cena de filme de terror, ou um daqueles vídeos absurdos que pipocam no Youtube. A cena final também possui bastante força expressiva: a câmera fica concentrada no rosto de George Clooney durante muito tempo, enquanto ele sai do prédio onde acabara de realizar o maior dos seus atos profissionais e o grande ato heróico de sua vida.

O olho da lente, que funciona aqui quase que como um cérebro, parece procurar adivinhar, ou mesmo captar os pensamentos do personagem: no começo, com uma expressão vazia e aturdida, calma e excitada ao mesmo tempo, como que não acreditando no que acabara de fazer, enquanto pega um táxi e diz ao condutor para levá-lo a qualquer lugar. Michael Clayton parece totalmente perdido dentro de si, a real (e gigantesca) dimensão da atitude que acabara de tomar ainda não lhe caiu. Finalmente, quando a ficha parece cair, ele esboça um leve sorriso. Tela negra. Fim do filme. É esse tipo de sutileza que dá graça para uma obra cinematográfica. Finalmente, parece que Michael Clayton se realizou com o seu trabalho “sujo” (porém, aqui, a sujeira foi feita com uma finalidade realmente positiva).

Finalmente ele parece ter alcançado aquele equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, tão difícil em profissionais envolvidos assim com o “grand monde”. O mesmo equilíbrio que foi perguntado àquela que tem na U-North a mesma função que Clayton em sua firma, e que será sua nêmesis, Karen Crowder (Tilda Swinton, que ganhou um Oscar pelo papel). Também é rica a cena que mostra, em montagem paralela, o ensaio que ela faz do seu discurso, em casa e em frente ao espelho, e a execução de fato desse discurso na frente da câmera de entrevista. O equilíbrio que ela atinge é falso, artificial e sem significado. Ela é apenas uma profissional, no pior sentido do termo. Faz o que lhe mandam fazer, o que é preciso fazer em busca da eficiência corporativa. Quanto a Michael Clayton, no final das contas, ele será de fato milagreiro.