quinta-feira, julho 05, 2007

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado


Esta seqüência mantém as mesmas qualidades do primeiro filme: personagens carismáticos, diálogos afiados, tiradas espertas, espírito de família; esse é o quarteto fantástico. Johnny Storm chega – todo feliz – com o uniforme mais parecendo macacão de piloto de fórmula 1, repleto de adesivos de marcas reais (!) mostrando os novos patrocinadores; sua irmã Sue sai com uma cara de “que absurdo!”; então, o nosso Tocha Humana exclama zombeteiro: “O que você tem contra o capitalismo?” A risada aí rola solta entre a platéia e eu não consigo deixar de me lembrar – com alegria – dos gibis dos X-Táticos (escritos pelo agudo Peter Milligan, que mostravam um grupo de “super-heróis” como golpe publicitário); e também me lembro – com tristeza – da genial idéia do nosso ex-prefeito de São Paulo, José Serra, de afixar “patrocínios” nos uniformes escolares de nossas crianças...

No entanto, há um momento em que o filme bem que poderia ficar sério: quando abate-se sobre o nosso pobre planeta azul a ameaça da aniquilação total, a ser perpetrada pelas mãos do impiedoso Galactus, com a ajuda do Surfista Prateado, o fiel arauto. Ganharíamos muito em dramaticidade se as horrendas preparações que o Surfista faz para a vinda de seu mestre fossem mostradas, em algumas cenas, do ponto de vista da população comum; isso seria particularmente interessante no final do filme, quando o Juízo Final torna-se evidente e (aparentemente) irreversível. Aqui, os roteiristas poderiam ter se inspirado no terceiro volume da maravilhosa série Marvels, publicada nos anos 90, que reconta a história da vinda de Galactus sob o ponto de vista das pessoas comuns, testemunhas passivas de uma verdadeira batalha entre deuses e titãs nos céus acima de suas cabeças.

A violentíssima antítese entre as proporções do ser devorador de mundos e as dos desafortunados porém corajosos terráqueos (dentre eles o quarteto fantástico) por si só já seria belíssima... Na história original, aos apelos do Sr. Fantástico para que poupasse a Terra, Galactus simplesmente joga o seguinte argumento: por um acaso vocês, humanos, atenderiam aos apelos de formigas?... Infelizmente, o filme não alcança tais altitudes. Mesmo assim, a cena que mostra a imensa cratera surgindo no rio Tamisa, no coração de Londres, é impressionante, assim como a perseguição do tocha Humana ao Surfista Prateado, verdadeiro tour de force.

Enfim, as significações alegóricas presentes nos gibis foram deixadas de lado. Nas histórias, Galactus só “consome” planetas cuja civilização tenha chegado em um ponto no qual esgotará inevitavelmente todos os recursos naturais, causando, junto com a poluição, o fim de si mesma – quiçá do planeta como um todo. Alguns fãs mais xiitas podem reclamar de Galactus não ser mostrado em sua forma original (que vem dos anos 60): um robô gigantesco, ou homem numa armadura robótica. Mas isso, em nossos dias, no cinema ainda por cima, ficaria meio ridículo, não? Convenhamos... A solução neste filme é ótima: Galactus é uma força animada da natureza, de proporções absolutamente gigantescas e de modo algum antropomórfica.

A maneira como o exército norte-americano lida com o Surfista Prateado traz à lembrança O Dia Em Que A Terra Parou (1951, Robert Wise), em que as forças militares dos Estados Unidos “enfrentam” o robô prateado que sai do disco voador. Neste Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, digam-me se não é provocante o fato de o exército norte-americano prender o Surfista numa base (secreta?) na Sibéria (!) e usar um torturador chamado Sr. Sherman (!) para interrogá-lo. Apesar do que deixou de fazer em outros aspectos, tais sutilezas é que fazem o melhor deste filme.

terça-feira, julho 03, 2007

O Labirinto do Fauno


Este texto é para quem já viu O Labirinto do Fauno.

A iconoclastia da Reforma abriu literalmente uma fenda na muralha protetora das imagens sagradas e desde então elas vêm desmoronando umas após as outras. Tornaram-se precárias por colidirem com a razão desperta. Além do mais, muito antes seu significado já fora esquecido. Terá sido realmente um esquecimento? Ou, no fundo, o homem jamais soube o que significavam, e só recentemente a humanidade protestante percebeu que não temos a menor idéia do que quer dizer o nascimento virginal, a divindade de Cristo, e as complexidades da Trindade? Até parece que essas imagens simplesmente surgiam e eram aceitas sem questionamento, sem reflexão, tal como as pessoas enfeitam as árvores de Natal e escondem ovos de Páscoa, sem saberem o que tais costumes significam. O fato é que as imagens arquetípicas têm um sentido a priori tão profundo que nunca questionamos seu sentido real (grifo meu). Por isso os deuses morrem, porque de repente descobrimos que eles nada significam, que foram feitos pela mão do homem, de madeira ou pedra, puras inutilidades. Na verdade, o homem apenas descobriu que até então jamais havia pensado acerca de suas imagens. E quando começa a pensar sobre elas, recorre ao que se chama “razão”; no fundo, porém, essa razão nada mais é do que seus preconceitos e miopias (outro grifo meu). C. G. Jung, "Sobre os arquétipos do inconsciente coletivo", in Os arquétipos e o inconsciente coletivo.

Considerando a aparente ambigüidade, revelada sobremaneira no final de O Labirinto do Fauno (“El Laberinto del Fauno”, México, Espanha, EUA, 2006; dir.: Guillermo Del Toro), será pertinente questionar o “sentido real” da “fantasia” ali presente? Será que isso importa, de verdade? Em que pode acrescentar à mensagem do filme desmontarmos em termos psicologizantes o seu aspecto maravilhoso como mero construto de uma mente infantil (a da protagonista Ofélia) que, naturalmente, recusa-se a crescer e amadurecer, não aceitando todo o peso da realidade e não lidando com ela de maneira objetiva e racional – ou seja, de maneira adulta? Pergunto essas coisas porque ainda me lembro das violentas críticas que se fizeram a respeito de A Vida é Bela (Itália, 1997, dir.: Roberto Begnini). Agora, o filme de Gillermo Del Toro não foi “agraciado” com as mesmas opiniões, talvez porque ele não associe a solução fantasiosa a um grupo étnico tão alvo de polêmicas como os judeus, ou talvez porque se trate aqui da fantasia da mente infantil de uma criança (na verdade, pré-adolescente), e não da de um marmanjo, o que seria vergonhoso...

Sendo assim, eu pergunto novamente: será intelectual e moralmente justo nós, seres adultos e esclarecidos, cultivarmos essa condescendência esnobe com o que julgaríamos ser apenas fruto de um delírio infantil? Em nosso admirável mundo novo, quantas vezes não esquadrinhamos as mais magníficas expressões artísticas e culturais, que trazem de modo rico e enriquecedor as mais altas, profundas e pertinentes questões humanas e até mesmo sobre-humanas (transcendentais) como se fosse apenas curiosidades antropológicas ou psicológicas? Estou cansado desse materialismo racionalizante e redutor! Cansado na medida em que ele apaga (nas mentes mais doutrinárias) quaisquer possibilidades de outras leituras e significações. A Razão, grande razão do homem, não pode descambar para preconceitos e miopias, no dizer de Jung.

Desse modo, quantas inteligências não assistem ao Labirinto do Fauno, acham o filme “bonito e comovente”, mas no fundo e ao mesmo tempo, pensam que aquela menina deveria mesmo era amadurecer e “cair na real”, lidando objetivamente com os problemas reais e imediatos (pois só assim ela se salvaria)? Talvez ela devesse mesmo era entrar para a guerrilha, ora bolas! Eis o pensamento moderno!

O Labirinto do Fauno é um grande filme justamente porque ele se abre a duas leituras, basicamente: a materialista e a mágica. Na verdade, ele parte – dialeticamente – de contextos e discussões bem particulares (a guerrilha e o fascismo na Espanha) e transcende para questões mais universais. Que o espectador reduza o escopo do filme de acordo com os seus próprios preconceitos pessoais! A polivalência semântica é o que faz as grandes obras de arte. O fato é que muitas pessoas “inteligentes” correrão o sério risco de questionar o “sentido real” (Jung) da narrativa, permanecendo cegos ao sentido profundo e a priori dos arquétipos significativos ali presentes. Mas isso também pode se dever ao fato de o cinema ser a mais “realista” das artes, e a visão (ultra) realista parece estar na moda em nossos dias – eu já discuti em outros textos este fato de que os filmes mais recentes (mesmo os de fantasia) apegam-se à realidade de uma maneira quase naturalista, e isso parece ser um gosto e uma exigência do público: basta ver os últimos filmes de super-heróis, em que eles se transformaram mais em anti-heróis (até mesmo o super-homem, coitado!), ou o tão ilustrativo exemplo de Tróia, que está mais para cobertura de guerra da CNN do que tradução fílmica da Ilíada.

A “morte dos deuses” de que fala Jung traz graves problemas à nossa psique individual e coletiva. Ela pode fazer com que não percebamos o que há de mais belo e significativo em O Labirinto do Fauno: o fato de que só a fantasia (ainda que seja apenas fruto de um delírio psíquico) pode se opor à realidade (nazi-fascismo). Só a subjetividade pode se opor à objetividade. Só o irracional pode se opor ao racional. Só o infantil pode se opor ao adulto. Só a natureza (simbolizada pela magnífica figura arquetípica do Fauno) pode se opor à civilização. Só o feminino pode se opor ao masculino. Só a pureza pode se opor à malícia. Só a indisciplina pode se opor à disciplina. Só a esperança pode se opor ao desespero. Só o bem pode se opor ao mal. Esses são os embates que verdadeiramente ocorrem no filme de Guillermo Del Toro – a luta entre a guerrilha socialista e o governo fascista pouco importa. As melhores armas contra o horror, contra a barbárie totalitária são outras, bem outras. A verdadeira batalha não se dá entre pistolas e rifles, mas entre idéias. A verdadeira revolução é a das idéias. A história já se cansou de nos mostrar o perigo e os resultados tenebrosos de “revoluções” objetivas sem o seu devido acompanhamento subjetivo. Ofélia é o grande exemplo, do qual nunca devemos nos esquecer.

Só a bondade incondicional de Ofélia pode se opor à maldade incondicional do fascismo. Ofélia não quis sacrificar o irmãozinho para o que seria um bem maior; será que a guerrilha faria o mesmo? A guerrilha executou friamente o capitão Vidal, já rendido; será que Ofélia faria o mesmo?

segunda-feira, julho 02, 2007

Filmes Medievais






Isto é incrível! Um site: http://ziza.ru/2006/06/16/rastamanskie-narodnye-skazki.html(em russo, infelizmente) que tem gravuras no melhor estilo medieval representando grandes sucessos do cinema (!)... Agradecimentos ao site http://www.cinematografo.com.br/filmes-como-historias-medievais/ pela notícia e pelo link. Acima estão algumas das "iluminuras" (adivinhe a que filme cada uma se refere).