sexta-feira, outubro 06, 2006

Absolutamente Certo

Reproduzo aqui um trabalho que escrevi há três anos atrás para uma matéria que fiz (“História do Audiovisual II”) na ECA-USP. O tema escolhido foi o filme Absolutamente Certo (1957), estréia na direção de Anselmo Duarte, cuja obra mais famosa e importante é O Pagador de Promessas (1962).

As relações entre cinema e TV dão muito assunto para discussão. É comum dizer que a televisão no Brasil, a partir dos anos 50, arrancou à sétima arte uma parte considerável do seu público. Apesar disso (ou por isso mesmo) o diálogo entre os dois meios é intenso: em alguns lugares, formaram-se parcerias produtivas que fazem bastante sucesso; na estética, a linguagem da TV assimilou a do cinema e, posteriormente, o foi o cinema que assumiu o estilo televisivo. Mas e quanto às relações temáticas? Não conheço, no cinema brasileiro, uma fita que trate do universo da televisão, do modo como faz Anselmo Duarte em Absolutamente Certo.

Nesse filme de estréia (1957), o diretor se faz pioneiro em mostrar o que é a TV, invenção maravilhosa que acabara de surgir, e qual o seu impacto na sociedade, numa chave de crônica humorística. Tudo bem colocado, pesa um elogio ao novo meio audiovisual, mas sem deixar de lado aspectos negativos, tratados com o humanismo característico de O Pagador de Promessas.

A TV está no filme, e o filme está na TV: Absolutamente Certo abre e fecha com as luzes de um estúdio de televisão, manipuladas pelos técnicos. Mas a identificação entre o filme e a atração televisiva não pára por aí. Em seguida, vemos uma câmera de TV se aproximar até quase tocar na do próprio filme, enquanto aparecem na tela os créditos. Coloquemo-nos numa posição imaginária onde possamos ver as duas câmeras, uma diante da outra, perscrutando-se mutuamente, como duas espécies de animais que desconhecem uma à outra mas que se sentem familiares; perceberemos o impacto significativo dessa imagem e do filme que ela anuncia.

Em vários momentos, podemos ver como era a TV brasileira nos anos 50. A começar pelos “quiz show”, do tipo do programa justamente intitulado “Absolutamente Certo”, que premia o chamado “conhecimento inútil” e fazem muito sucesso até hoje – veja-se, por exemplo, o Show do Milhão. O filme também mostra de importante:
1. O dilema (bastante atual) dos programadores de TV entre o “apelativo” – que aumenta a audiência e agrada aos anunciantes e patrocinadores (dos quais a emissora depende) – e a preocupação por uma cultura e educação mais elevadas. Esse tema aparece na cena (apesar de curta) em que se discute a importância e o interesse de se levar ao ar um homem que tem toda a lista telefônica decorada na cabeça;
2. A vaidade das primeiras estrelas dos programas, o nascimento do “star system” da TV nacional, na cena da cantora que dá “chiliques” por causa de seu vestido excessivamente apertado. O personagem simples (Zé do Lino) interpretado pelo próprio Anselmo Duarte considera louca essa mulher.
3. As imensas e pesadas câmeras de TV, que não tinham “zoom”, e precisavam se deslocar no espaço para fazer tomadas mais aproximadas; o aparelho receptor nos domicílios familiares, que custava a ter uma imagem de qualidade satisfatória na recepção, merecendo por isso a reclamação da personagem engraçada de Dercy Gonçalves.

Quanto às relações entre TV e sociedade, tem-se representado no filme o fenômeno dos “televizinhos”, assim como a dificuldade de se comprar um aparelho – na cena em que o marido da personagem de Dercy se refere à compra em prestações do televisor (na época, havia uma política de crédito ao consumidor na compra de aparelhos de televisão, tudo para estimular a expansão da TV no Brasil). Um momento significativo é quando a esposa do italiano Rinaldi vê, no programa “Absolutamente Certo”, Zé do Lino recitar de cor o endereço e o número do telefone de seu marido. Quando ela comunica ao último esse fato, a reação assustada do pobre homem, que até então apenas lia o seu jornal, é bem engraçada para nós; mas coloquemo-nos no lugar daquele homem, naquela época, aos se achar “descoberto” pela TV em sua própria casa. Rinaldi, ao telefone com o apresentador do programa (ao vivo, pois ainda não existia VT) para corrigir o número do seu telefone – indevidamente anotado pela produção –, fala alto e gesticula para o televisor, interagindo com o aparelho como se fosse ele o seu interlocutor.

Contudo, o melhor deste filme está no protagonista Zé do Lino (Anselmo Duarte). Já é absurdo o fato de ele decorar a lista telefônica mas não possuir um aparelho de telefone. Interrogado com surpresa pela secretária da emissora de TV (onde ele participará do programa de perguntas e respostas “Absolutamente Certo”), ele responde com aquela calma...: “Arrumar lista é fácil, mas telefone nesta terra...” É a visão social de Anselmo Duarte (tanto do personagem vivido por ele quanto dele como cineasta).

Zé do Lino é o homem simples, comum, repentinamente jogado no distante mundo do “showbusiness”: a timidez e o embaraço dele são características. Porém, mesmo imerso no universo da vaidade e manipulado pelos “maus” (os apostadores do programa), ele se mantém file aos bons e tradicionais valores, recusa propostas indecentes, não se acostuma com riqueza e fama, é espiritualista – veja-se a opinião que tem sobre a beleza interior da namorada – e ainda por cima sofre com a intolerância dos sogros. Enfim, ele é o autêntico “bom rapaz” da canção de Wanderley Cardoso, à maneira antiga.

A apresentação dele, no começo do filme, é bem significativa, tal como a dos grandes personagens narrativos: enquanto a família toda se espreme ao redor do televisor, com a atenção inabalavelmente fixa, a câmera abre caminho por entre eles e vai descobrir Zé do Lino e sua namorada lá no fundo da sala, num abraço apaixonado e completamente alheios a tudo o que se passa ao redor. Ou seja, Zé do Lino é o homem simples e sábio que não se deixa dominar pelo “canto de sereia” da TV, novidade na vida daquelas pessoas. No entanto, esse momento também vai ser maculado pela TV-destruidora-das-relações-familiares, quando – na mesma cena – a família interrompe o namoro dos dois para sugerir a Zé que use a sua inteligência para enriquecer no programa “Absolutamente Certo”.

O lado “bom rapaz” de Anselmo Duarte (desta vez como diretor) fica evidente na ligação entre as cenas da festinha “rock and roll” (novidade “subversiva” da época) dos bandidos e o “jura” (famosa canção popular brasileira antiga) cantado por Dercy Gonçalves na festa em casa da namorada de Zé. É definitivamente um filme familiar. A família inteira é levada para a frente das câmeras de TV, na sarabanda do final, e a frase de Dercy para a câmera (de TV, que neste momento se mistura à do próprio filme) ressalta a defesa da família que Anselmo propõe.

A crítica social humanista de Anselmo Duarte adquire beleza estética fenomenal na cena em que um cantor negro interpreta o número “Onde estou?”, promovido pela emissora durante um jantar, com direito a todo um cenário teatral. “Onde estou?” é o que parece perguntar a si mesmo Zé do Lino no mundo louco da TV, já que, por natureza, ele não pertence àquele meio (ele declara ao apresentador que só participa do programa para ajudar a família); “Onde estou?” é o que parece perguntar o negro que até hoje luta para conquistar um lugar digno no Audiovisual – vale lembrar que o cenário onde aquele artista negro canta, durante o jantar de gala, é decorado com elementos da natureza selvagem. Após um movimento para trás, a câmera revela que a “selva” onde o cantor negro se apresenta está instalada num salão de jantar luxuoso; eis o espetáculo nacional. São essas antíteses que revelam as contradições sociais brasileiras, a “inclusão excludente”, as desigualdades e os preconceitos.

Absolutamente Certo é um grande filme de entretenimento com interessantes e importantes coisas “a mais”.

Absolutamente Certo (1957)
Gênero: Comédia
Duração: 95 min
Origem: Brasil
Estúdio: Cinedistri
Direção: Anselmo Duarte
Produção: Oswaldo Massaini
Elenco:
Anselmo Duarte (Zé do Lino), Dercy Gonçalves (Bela), Odete Lara (Odete), Aurélio Teixeira (Raul), Maria Dilnah (Gina), Murilo Amorim Correia (Guilherme), Suzy Arruda (Mulher do Luciano), Jaime Barcellos (Capanga)

quarta-feira, outubro 04, 2006

Guimarães Rosa e Cinema

Bruna Lombardi como "Diadorim", na minissérie televisiva Grande Sertão: Veredas (1985).
Adaptar para o cinema a obra literária de João Guimarães Rosa é uma das coisas mais difíceis que existem. Não apenas por causa de toda a inventividade lingüística do grande escritor mineiro, intraduzível para a linguagem audiovisual, mas, principalmente, por causa da alta temática mítica, mística e filosófica do autor de Sagarana.

O sertão de Rosa não é apenas aquele que todos conhecemos, dissecado geográfica e sociologicamente por Euclides da Cunha (Os Sertões) e Graciliano Ramos (Vidas Secas). Guimarães Rosa trata muito bem do “particular” do sertão: a paisagem, os tipos, as relações políticas, a vida e a cultura específicas do sertanejo – a obra de Rosa tem esse grande valor, essa contribuição para o registro e o estudo da brasilidade do sertão; contudo, o escritor vai muito além de tais questões “específicas”: em João Guimarães Rosa, o sertão também é palco de tragédias shakespearianas, de uma profunda reflexão filosófica e até mesmo mística sobre o homem e suas grandes questões – a “morte”, o “destino”, o “as contradições do amor”, o “diabo”, o “livre-arbítrio”, a “amizade”, a “paz” e a “guerra”, a “loucura”, a “iluminação interior”, a “memória”, a “busca” pela “verdade divina”, e muitos outros pontos que fazem a literatura roseana transcender para o “universal”. O próprio escritor confessa que tinha o objetivo de criar histórias que fossem “eternas”, que pudessem ser lidas no futuro distante sem perder o interesse geral.

As narrativas de Rosa tratam de todos esses grandes temas abstratos fazendo-os encarnarem em personagens e situações dotados de forte caráter mítico (o mito é a representação concreta de valores abstratos). Assim, a sua literatura não é apenas um documento sócio-histórico, ela é um “cosmo de mitos” (na acepção do crítico e historiador literário Alfredo Bosi). Suas histórias são estruturadas como fábulas e parábolas que sempre trazem alguma profunda mensagem de ordem filosófica.

Essa dimensão, que poderíamos chamar – a grosso modo – de “idealista”, é, obviamente, pouquíssimo estudada e valorizada no meio acadêmico, naturalmente preso ao “espírito” científico-intelectual de nossa época: essencialmente materialista. As inteligências desiludidas da modernidade e da pós-modernidade acham no mínimo “ingênua” a mera idéia de transcendência.

Os filmes que já se fizeram (pelo menos, os que eu conheço) sobre os livros de Guimarães Rosa também deixam-se contaminar por essa visão. A Terceira Margem do Rio (1994) – adaptação de alguns contos de Primeiras Estórias, do grande Nelson Pereira dos Santos, faz o ridículo desserviço de dar ares pitorescos ao conto A Menina de Lá, originalmente de uma profunda e comovente seriedade místico-filosófica. O diretor de Rio 40 Graus e Vidas Secas pode ser muito bom no estudo do “particular” que explicamos anteriormente; mas revelou tato e sensibilidade zero para representar o conteúdo “universal” de Rosa.

Ainda não tive, infelizmente, a oportunidade de ver A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965), de Roberto Santos, baseado no famoso conto homônimo, presente em Sagarana. Mantenho a esperança de que ele “entenda” melhor a obra original. Também não pude assistir a Outras Estórias (1999), de Pedro Bial – sim, ele mesmo, do “Fantástico” e do “Big Brother” –, outra fita inspirada por contos de Primeiras Estórias; coloco aqui também a mesma esperança.

Sagarana: O Duelo (1973), de Paulo Thiago, não é um filme ruim como o de Nelson Pereira dos Santos. A partir do conto de mesmo nome, o diretor não alça vôo tão alto como o de Guimarães Rosa, mas representa de maneira séria e respeitosa o drama dos personagens e a tragédia dos acontecimentos; o filme é veste-se de um tom poético que não faz feio perto do original.
(continua no post abaixo)

continuação de Guimarães Rosa e Cinema

(continuação do post acima)

Agora, o caso à parte é O Grande Sertão (1965), dirigido pelos gêmeos Geraldo e Renato Santos Pereira – o primeiro dirigiu, recentemente, Aleijadinho, Paixão e Glória (2003), escrito pelo segundo. O filme veio vinte anos antes da famosa minissérie da TV Globo, Grande Sertão: Veredas (que não vi). Ambos tentam traduzir e adaptar o volumoso romance de Rosa, um dos maiores de nossa literatura, e de qualidade internacional. Grande Sertão: Veredas é a narrativa mais ambiciosa de Guimarães Rosa, no aspecto formal (a experimentação e as misturas lingüísticas do escritor estão todas lá, nas cerca de 600 páginas em um único bloco, sem a divisão de capítulos) e no de conteúdo: as reflexões filosóficas generalizantes são representadas em uma história grandiosa, ao mesmo tempo fortemente lírica (as memórias do ex-jagunço Riobaldo), épica (as guerras dos grupos de Jagunços no sertão mineiro) e dramática (a peculiar relação entre Riobaldo e o seu companheiro Diadorim). É uma novela de cavalaria sertaneja.

Assim, foi com grande entusiasmo que peguei para ver esse filme. Mas que desastre! Talvez eu nem devesse falar dele; bastaria representar o diálogo de uma tirinha da série Níquel Náusea, de Fernando Gonsales (se eu tivesse um scaner, colocaria a tira inteira):

“O famoso rato azul está lendo um livro de histórias para os seus filhotes. Ele diz:
- Essa de chapéu vermelho é entregadora de pizza! Ela perguntou pro lobo o endereço da velha. Êpa! A velha se transformou num lobo!
Um dos seus filhotes diz para outro:
- Pra mim, ele não sabe ler!”

Esse trecho nos ajuda a entender de uma maneira toda especial o filme Grande Sertão e a sua relação com a obra original de João Guimarães Rosa. Não me lembro de ter visto uma adaptação literária pior. Um dos objetivos deste post é documentar algo sobre esse filme na Internet, pois é bem pouco o que eu encontrei sobre ele na rede. Em princípio, eu achava que a escassez de informações devia-se ao velho problema de divulgação e distribuição de filmes nacionais, principalmente dos mais antigos; acreditava eu que era um filme “cult” que precisava ser redescoberto. Agora, penso eu que não se fala muito sobre ele simplesmente porque é muito ruim, não deve ter despertado atenção nem sobrevivido à peneira da história.

O começo é até bom, com os jagunços saindo do meio da névoa – como anjos do apocalipse, numa cena de aura mítica e mística bem de acordo com a literatura de Rosa. Essa cena precede a da abertura de Táxi Driver (1976), de Martin Scorsese, com o táxi também saindo do meio da névoa escura, como um anjo (ou demônio) vingador. A apresentação dos personagens, os diálogos na linguagem sertaneja, as cenas paisagísticas do sertão mineiro com a voz em “off” de Riobaldo interpretando o belíssimo texto original de Guimarães Rosa, tudo isso é muito bonito e bom como cinema. Mas...

Quando, antes da metade do filme, descobrimos (assim como Riobaldo) o segredo sagrado de Diadorim, todo meu encantamento caiu por terra, foi substituído por uma raiva que é difícil eu sentir em relação a um filme. Falo de maneira tão contundente, pois considero essa película um gritante desrespeito artístico para com a narrativa original de João Guimarães Rosa. Toda a estrutura narrativa do longo romance é construída em torno do segredo de Diadorim, das dúvidas e medos de Riobaldo em relação ao seu sentimento pelo amigo e à ambigüidade sutil da relação entre os dois. Pois o filme dos irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira, que já é muito curto (92 minutos), destrói tudo isso antes da metade de sua duração. A partir daí, essa “obra-prima” cinematográfica transforma o relacionamento Riobaldo-Diadorim num dramalhão folhetinesco inacreditável. Eu fiquei estupefato. O roteirista é Roberto Farias, que dirigira pouco antes o magnífico Assalto ao Trem Pagador (1962)...

Não vou dizer como termina o livro, pois isso seria um “spoiler” grande demais (apesar de já ser um fato folclórico no meio literário). Digo apenas que a narrativa do romance só veio a existir como processamento que Riobaldo faz de suas memórias e sentimentos com relação a fatos passados que ele não pôde controlar – pois não sabia do que se tratava – e, assim que soube, tarde demais, não pôde fazer nada para mudar. O filme, ao jogar tudo isso no lixo, acaba criando petulantemente uma outra história, com outros personagens. Não se deixe enganar por essa “adaptação”. A quem quiser fazer-se a si mesmo um grande bem, leia o romance Grande Sertão: Veredas, deixe-se conduzir por sua maravilhosa narrativa e surpreenda-se no final.

Obras de João Guimarães Rosa adaptadas para o Cinema e TV:

“O Grande Sertão”: 1965, dirigido por Geraldo e Renato Santos Pereira. Baseado em Grande Sertão: Veredas, romance originalmente publicado em 1956. Existe em DVD.

“A Hora e Vez de Augusto Matraga”: 1965, dirigido por Roberto Santos. Baseado no conto homônimo, do livro Sagarana, originalmente publicado em 1946. Não existe em DVD.

“Sagarana: O Duelo”: 1973, dirigido por Paulo Thiago. Baseado majoritariamente no conto O Duelo, do livro Sagarana, originalmente publicado em 1946. Existe em DVD.

“Grande Sertão: Veredas”: 1985, dirigido por Walter Avancini. Minissérie originalmente exibida na Rede Globo de televisão, baseada no romance homônimo originalmente publicado em 1956. Não existe em DVD.

“A Terceira Margem do Rio”: 1994, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Baseado em cinco contos do livro Primeiras Estórias, originalmente publicado em 1962: o que dá título ao filme, A Menina de Lá, Os Irmãos Dagobé, Seqüência e Fatalidade. Não existe em DVD.

“Outras Estórias”: 1999, dirigido por Pedro Bial. Baseado em alguns contos do livro Primeiras Estórias, publicado originalmente em 1962, dentre os quais: Famigerado, Nada e a nossa condição, e Substância. Não existe em DVD.