sábado, fevereiro 10, 2007

Poesia e Espiritualidade

A Queda da Casa de Usher (Jean Epstein, 1928)
É fascinante ler os primeiros pensadores do cinema, os pioneiros na teoria cinematográfica; a visão deles é maravilhada como a das crianças, e eles a traduzem com a sensibilidade dos poetas. O prazer que eles proporcionam ao estudante de cinema é inversamente proporcional à náusea provocada pelos textos e pela abordagem dos intelectuais da semiótica cinematográfica.

Os pioneiros não tinham método ou eficácia científica? Eles mal sabiam o que estavam fazendo e do que estavam falando? Isso não interessa! A arte não deve ser tão submetida ao jugo da “ciência” como o fazem certas linhas de pesquisa bastante famosas e queridinhas da segunda metade do século XX. Argumento final: a poesia dos primeiros teóricos do cinema (Canudo, Delluc, Dulac, Gance, Epstein) está mais próxima da poesia do próprio cinema (sendo assim mais eficaz a compreendê-la e explicá-la) do que as taras, os fetiches racionalizantes dos semióticos.

Eu troco fácil todos os volumes de estudos “científicos” de cinema por esta única frase de Abel Gance: O cinema é a música da luz.

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Reproduzo a seguir um trecho de O Cinema ou o Homem Imaginário, em que Edgar Morin cita Jean Epstein:

O cinema, ao reencontrar a sobreposição mais ou menos exata da percepção prática e da visão mágica (...), opera uma ressurreição da visão primitiva do mundo. O cinema apela, permite, tolera e inscreve o fantástico no real. De tal modo ele renova, como muito bem diz Epstein, o espetáculo da natureza, que “o homem nele reencontra algo da sua infância espiritual, do antigo frescor da sua sensibilidade e do seu pensamento, dos primitivos choques de surpresa que provocaram e dirigiram a sua compreensão do mundo (...) A explicação que primeiro se impõe ao espectador é fruto da velha ordem animista e mística”.

Conecto o parágrafo acima com os abaixos, de Andrei Tarkovski em Esculpir o Tempo – fazendo coro com o lado espiritual do cinema:

O que hoje passa por arte é, em sua maior parte, mentira, pois é uma falácia supor que o método pode tornar-se o significado e o objetivo da arte. Não obstante, a maior parte dos artistas contemporâneos passa seu tempo em exibições auto-complacentes de método.

A questão da vanguarda é peculiar ao século XX, à época em que a arte vem progressivamente perdendo sua espiritualidade. (...) A opinião corrente é a de que esta situação reflete a “desespiritualização” da sociedade moderna, um diagnóstico com o qual, a nível de simples constatação da tragédia, concordo plenamente: trata-se mesmo de um reflexo da atual situação. A arte, porém, não deve apenas refletir, mas também transcender (...) (Grifo meu)

Grande e pobre Tarkovski! Quem é que hoje acredita na transcendência?

É preciso coragem para defender uma posição dessas em nossa época. Digo isso, porque, em todos os meus anos de estudos, dentro e fora da universidade, não conheci pessoalmente NINGUÉM que assumisse tal postura. Eis o caminho da nova revolução: trazer de volta o espiritual para o seio do material, equilibrando-o. Essa revolução é tão necessária quanto aquela que veio trazendo, desde o Iluminismo (e principalmente durante o século XX), o materialismo racional e formalista. Nos meios “inteligentes”, a visão de mundo racional e científica tornou-se dogma. É preciso, então, combatê-lo com a mesma força e medida com que se combateu (e se continua combatendo) o dogmatismo religioso-espiritualista.

É “batata” que filmes metalingüísticos, ou do tipo “mundo cão” (vide as obras de Cláudio Assis), caiam como luvas nas graças dos apreciadores “inteligentes” de cinema; enquanto películas mais sutis como “A Oitava Cor do Arco-Íris” amargam prejuízo e esquecimento. Cineastas como Steven Spielberg e Walter Salles até são elogiados, mas geralmente por seus métodos, criticando-se neles o “sentimentalismo” e a “ingenuidade”. Quantas vezes já não vi críticas de filmes apontarem o final “edificante” como um defeito, deslize ou compromisso mercadológico...

Há algo de podre no reino da Dinamarca.


A queda da Casa de Usher (Jean Epstein, 1928)

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